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  • Salazar sem Salazar

    Beja Santos 

    Entre Agosto de 1968 e Julho de 1970, Salazar (tratado nos meios de comunicação como “o ilustre enfermo”) é um fantasma que parece constantemente descer à realidade política e influenciá-la directamente. Parece estar politicamente morto, mas há quem suspire pelo seu regresso, mesmo depois de ele ter aparecido nos televisores, em 1969, mostrando inequivocamente as suas incapacidades. Este período é o mais incómodo da sua biografia, como se fosse desinteressante conhecer o salazarismo depois do desaparecimento político de Salazar. “Os últimos meses de Salazar” foi o estudo a que se abalançou um professor catedrático da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa, Paulo Otero (Edições Almedina, 2008). 

    Aos 79 anos, o construtor da mais velha ditadura da Europa, dá uma queda no forte de São João do Estoril, em Agosto de 1968. O autor aventa a hipótese de ter havido duas quedas diferentes, de acordo com alguns testemunhos. Toma igualmente em consideração a sua fragilidade física, o que não será de espantar para um homem da sua idade e que continuava a desenvolver um ritmo de trabalho absorvente. Não é questionável a perda de algumas faculdades, há depoimentos convergentes nesse sentido. A sua memória mantém-se bastante boa, se bem que surpreenda os seus colaboradores com alguns lapsos e conversas repetitivas. Observado depois da queda, ainda na primeira semana de Agosto, o médico assistente não descobre nada de relevante. Em 19, toma posse um novo governo, em 27, Salazar sente uma forte indisposição e em 3 de Setembro terá começado a manifestar sintomatologia de um traumatismo craniano. Observado em 6 de Setembro, Eduardo Coelho e Vasconcelos Marques levam-no para a Casa de Saúde da Cruz Vermelha, tendo passado primeiro no Hospital dos Capuchos onde lhe foi feito um electroencefalograma e análises laboratoriais. O seu estado é inacreditável, já não sabe a universidade onde se formou nem o ano da licenciatura. Detectado um hematoma, e havendo risco da própria vida, decide-se fazer operação a cargo do Dr. Álvaro Athayde. Abreviando, em 16 de Setembro, imprevistamente, Salazar sofre um violento acidente vascular cerebral. Américo Thomaz é confrontado com a sucessão, decorre uma patética reunião do Conselho de Estado em que se chega a pôr a hipótese da nomeação de um presidente do conselho interino. Thomaz vive horas de indecisão, é submetido a grandes pressões, até que nomeia Marcelo Caetano como substituto de Salazar. Este, sempre combalido e dependente, com uma elevada perda da visão, resiste a todas as crises, regressa à sua casa de São Bento num estado de semi-lucidez. É aqui que começar a tragédia (ou a farsa) do salazarismo sem Salazar: a censura não deixa passar notícias, haverá mesmo uma entrevista que ele concederá a um jornal francês de que não se fará uma só referência na imprensa portuguesa. Quem o visita dá opiniões dispares sobre o seu estado: acham normal a sua conversa, apático, ausente, acabrunhado, ninguém lhe fala de que foi destituído. Tem o telefone vigiado, os seus boletins médicos estão impedidos de serem publicados nos jornais. O regime de Caetano parece procurar evitar quaisquer notícias favoráveis à evolução do estado de saúde de Salazar. Não convém ao seu sucessor que se saia do quadro de “cadáver adiado” ou incapacidade absoluta de regressar ao mando, a derradeira nostalgia dos seus acólitos. O que o autor dá como provado, de acordo com os testemunhos registados, é que Salazar não perdeu a consciência total e manteve uma boa memória quanto a assuntos antigos. A sua morte física, em Julho de 1970, não lança o país em sobressalto, a imagem da sua incapacidade física irreversível consolidara-se, mesmo junto dos seus indefectíveis. 

    É na questão da sobrevivência do regime que o autor traz uma abordagem digna de reflexão. É do senso comum que Salazar montou um regime à sua imagem, desembaraçando-se de delfins, fomentando invejas entre os potenciais candidatos, gerindo os negócios do Estado fora de qualquer espírito de colegialidade. Observa o autor que Thomaz, ao longo dos anos 60, começa a recolher sinais de qualquer processo de sucessão passa por ele. A imagem popular de que é um corta fitas ou um fantoche, é desmentida por tudo quanto aconteceu a partir de Setembro de 1968. Ao lançar-se na defesa do Império, Salazar arrastou Thomaz para uma grande cumplicidade. Caetano irá, a partir de Setembro de 1968, perceber perfeitamente que Thomaz é um garante sem tréguas da ordem forjada por Salazar, é o representante máximo da velha ordem. Álibi ou não para a sua indecisão e para a sua incapacidade de modernizar o regime, o fantasma de Salazar, por ironia, é assumido por Thomaz que passa a ser olhado como o supremo vigilante da continuidade política. Há alguma razão no que diz Paulo Otero de que Caetano fica prisioneiro de Thomaz, vão ficar os dois presos com as mesmas algemas até 25 de Abril de 1974. O salazarismo sem Salazar acabou por sem a criação de Américo Thomaz. ´ 

    O último ponto da investigação de Paulo Otero prende-se com o enigma de Salazar saber se ainda governava, se estava convalescente ou demitido. Todos os testemunhos obtidos são inconclusivos. Não sei mesmo se um médico que estudasse profundamente o dossiê clínico de Salazar pudesse dar uma resposta cabal: ao velho ditador foi sempre poupado viver na realidade, tudo se escondia, toda a gente entrou no jogo do silêncio quanto ao presente, o próprio Caetano entrou na farsa de esconder a Salazar que já não mandava, todos os amigos se escusavam a dizer-lhe a verdade. O novo regime tinha toda a vantagem em não crispar o relacionamento com a linha fiel de Salazar, tudo leva a crer que houve uma conspiração de silêncio muito hábil de políticos, profissionais de saúde, amigos e até da D. Maria, a eterna zeladora do quotidiano de Salazar. Resta saber se podia ter havido alternativa à farsa que se montou durante meses a fio, sem custos ainda mais pesados para o sucessor do “ilustre enfermo”.

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