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Grandes Temas: Artigos de Mário Beja Santos

A CULTURA DO NOVO CAPITALISMO

Apercebi-me da real importância do pensamento de Richard Sennet quando li a sua obra traduzida em português “A Corrosão do Carácter – as consequências pessoais do trabalho no novo capitalismo” (Terramar, 2001). Abreviadamente, o sociólogo norte-americano desmonta neste ensaio a flexibilidade do trabalho e o seu impacto no carácter pessoal dos trabalhadores. No “novo capitalismo”, emergente na transição do século XX para o século XXI troca-se mais frequentemente de emprego e há menos burocracia que no passado. Deixou-se de falar no longo prazo e os empregos estão a ser substituídos por projectos. O “velho capitalismo” tinha vários controlos que perderam sentido ou peso: sindicatos fortes, garantias sociais do Estado Providência e as grandes empresas mediam o seu êxito pela relativa estabilidade que davam aos seus trabalhadores. Sennett pergunta como é que se podem prosseguir valores de longo prazo numa sociedade tiranizada pelo curto prazo. Reflectindo sobre o sistema industrial, recorda-nos que o fordismo baseava-se em três princípios: a lógica do tamanho (quanto maior mais eficiente), a lógica do tempo métrico (a gestão da fábrica sabia exactamente o que cada um dos operários fazia exactamente num determinado momento) e a lógica da hierarquia (a super-estrutura que organizava e dirigia a produção retirava das oficinas toda a possível criação). Agora, a nova linguagem da flexibilidade pressupõe que a rotina esteja a morrer nos sectores dinâmicos da economia.

Com a flexibilidade, reinventam-se as instituições, especializa-se a produção e dá-se a concentração do poder sem centralização. “Reengenharia” significa “fazer mais com menos”. Com esta especialização flexível procura-se colocar no mercado os mais variados produtos sempre cada vez mais depressa. A velha linha de montagem foi substituída por ilhas de produção especializada. No “novo capitalismo” a flexibilidade passou a ser igual a juventude. Os que mandam no reino do flexível vivem confortavelmente na desordem empresarial mas receiam a confrontação organizada. Sennett advertia neste seu livro: “Um regime que não dá aos seres humanos razões profundas para cuidarem uns dos outros não pode manter por muito tempo a sua legitimidade”.

Em “A Cultura do Novo Capitalismo” (Relógio D’Água Editores, 2006) Sennett, continua a analisar as metamorfoses do capitalismo a partir da evolução das instituições, das competências e das formas de consumo relativamente às aspirações libertárias dos anos 60. O resultado não é menos brilhante e sugere a leitura obrigatória. Segue-se uma síntese das suas ideias acerca do que é a cultura do novo capitalismo.

O trabalhador actual está submetido a desafios: gerir relações a curto prazo, passando incessantemente de uma tarefa ou de um emprego para outro; a cultura moderna menoriza as novas competências, submetendo-as a um stress tal que deixa claro que a meritocracia das revoluções francesa e norte-americana é um assunto intocável do passado, tendo sido substituída pelo valor do dinheiro e pelo afã de chegar ao topo da pirâmide social. A nova ordem do poder gerou uma cultura muito superficial que está a provocar muitas frustrações (na empresa, na família, nas relações entre os indivíduos).

O capitalismo social está na génese do fordismo, da organização burocrática das sociedades industriais e gerou os valores e princípios que deram forma à sociedade de consumo. Trata-se de uma cadeia de comando com funções determinadas, gerando solidariedade no seio da própria organização. O Estado Providência tornou-se no pilar da estabilidade, contribuindo para a exaltação do tempo organizado, para a motivação do trabalhador ficar muito tempo na empresa, gerando nele convicções de grande utilidade e sentido da carreira.

A partir dos anos 80 do século XX deu-se uma viragem no capitalismo. Primeiro, o poder transferiu-se para os accionistas que passaram a dar ordens ao director executivo. Segundo, a banca internacionalizou-se graças ao afundamento do sistema de Bretton Woods, passando os bancos a gerir fundos de pensões, comprando empresas, media e comunicação, em estreita articulação com os capitães da indústria. Terceiro, emergiram as novas tecnologias de comunicação e fabrico que ao lado da automação tornaram possível a desnatação das hierarquias, consagrando o trabalho de curto prazo, a gestão por objectivos em substituição do comando piramidal. Assim se consagrou a organização flexível.

Na organização flexível o poder está discretamente concentrado numa área de decisão que fixa as tarefas, julga os resultados, expande ou emagrece a empresa. Esta esforça-se por motivar a autonomia fixando as condições de competição entre equipas da mesma empresa, pondo termo às doutrinas de Taylor (a partir de agora o importante é produzir o melhor resultado e o mais rápido possível). Nasceu assim o novo stress laboral. Este novo capitalismo promove desigualdades que já nem levantam grandes clamores de protesto: é o caso das indemnizações principescas aos dirigentes que são afastados depois das fusões e concentrações. Nasceram deste modo três défices sociais: fraca lealdade institucional, diminuição da confiança informal entre os trabalhadores e enfraquecimento do saber institucional. Para quem comanda a empresa passou a ser um assunto delicado a construção de um sentimento de inclusão social que assente na identidade do trabalho. Com a hiper-qualificação e a infra-desqualificação o leque salarial tornou-se abismal. Os “McJobs” pululam, evidenciado que o capitalismo social está a ser enterrado.

A questão do consumo passou a centrar-se numa dicotomia: ou escolher com base em opções responsáveis ou aderir entusiasticamente ao “bom, bonito e barato”. As políticas liberais, para que as economias não estagnem, apoiam a segunda hipótese. Aliás, o modelo concorrencial é todo montado não para a cidadania mas para o consumo baratinho: passagens aéreas a 50€; férias em dormitórios exóticos a 500€; imitação de comida fina a escassos euros, mesmo que seja sensaborona; a promessa permanente de consumir mais medicamentos, mais cosméticos, mais alimentos disfarçados de medicamentos… É evidente que o sistema gera as suas apoplexias, com gente doente, obesa, crianças irritadas, pais inquietos com as consequências dos jogos de vídeo, etc. O gigante Wal-Mart é um dos exemplos paradigmáticos da busca pelo “bom, bonito e barato”. É uma empresa assente numa produtividade com gestão inovadora contínua, sem qualquer respeito pelos direitos sociais dos seus trabalhadores mas que pratica preços muito simpáticos para os seus consumidores. As comunicações comerciais servem para refinar a paixão devoradora, misturando o compromisso entre o sistema financeiro, o económico e o da comunicação. O mercado das notícias é cada vez publi-reportagem e publi-informação. Com o esfarelamento das classes médias, as normas estatutárias têm que ser sabiamente iludidas. A marca deve ser sugerida como mais importante que o objecto em si. Quer a Volskwagen quer a Ford, escreve Sennett, produzem diversas versões de um automóvel mundial- uma plataforma de base formada pelo chassis, pelo motor e certas partes de carroçaria e depois introduzem certas diferenças superficiais. A Volskwagen tem que convencer os seus consumidores que há diferenças substanciais entre o modesto Skoda e um Audi topo de gama (que, no fundo, têm 90% de semelhanças). Por alguma razão, somos hoje uma sociedade que paga muito bem aos manipuladores de signos. A aceleração técnica e as séries curtas permitem a participação do consumidor na amplificação das diferenças. Acresce que o consumidor vive iludido e satisfeito com os objectos que ele considera personalizados. É o caso da viatura, onde ele pode optar por várias dezenas de escolhas no concessionário. Num mundo apressado, a potência dos objectos é uma das bandeiras principais do marketing: mais rotações, mais músicas acumuladas, mais nitidez na imagem, som mais fiel… e andamos permanentemente a trocar de objectos para termos a máquina mais perfeita e ultrarápida.

Olhando à nossa volta, o campo do consumo é teatral já que o vendedor, tal como o dramaturgo, deve inspirar a suspensão voluntária de qualquer incredulidade, levando o consumidor a comprar. Somos por isso espectadores-consumidores.

Vivemos no mundo ocidental governados por plataformas políticas “centristas” que confiam no desenvolvimento económico orientado para a globalização, onde prevalece a meritodemocracia dos que triunfam nos negócios. Ao contrário da sociedade de consumo dos anos 50 do século passado, o poder e a autoridade separaram-se, e agora a responsabilidade recai nos próprios cidadãos. Enquanto isto se passa, os consumidores vivem permanentemente convidados a mergulhar na cultura da superficialidade: a escolher mais barato, a considerar que a competitividade dos mercados é mola real dos problemas sociais e que devorar objectos é um talento que assiste aos consumidores tecnicamente bem informados (é esta a proposta das associações de consumidores que continuam agarradas ao modelo consumista das políticas liberais.

O futuro do consumo e dos consumidores vai jogar-se num modelo de solidariedade e de responsabilização que o capitalismo social anda a prometer sem realizar: serviços de interesse geral, garantia de um rendimento de base, inclusão no consumo, apoios às actividades úteis das comunidades dedicadas ao bem comum.

As teses de Richard Sennett não podem ser ignoradas, comportam explicações (necessariamente discutíveis) sobre o que é hoje ser trabalhador-consumidor. O capitalismo global sabe que há limites à redução ou contenção do consumo de massas. Quem trabalha, quem produz é igualmente quem consome: a sociedade de consumo, depois de políticas sociais dos anos 50 aos anos 70, deixou-se dominar por novas desigualdades; a vida das empresas já não obedece a critérios militaristas, ser flexível é estar totalmente aberto à precariedade e precarização, a flexibilidade é sinónimo de trabalho temporário ou despedimento a qualquer momento; já não se pode ser leal com uma empresa que não respeitas as nossas competências e que desaproveita os nossos talentos; a cultura da empresa já não se mede pela solidariedade mas pelos resultados a curto prazo; no novo capitalismo arriscamos permanentemente à inutilidade, qualquer novo sistema informático pode ameaçar as nossas tarefas; o compromisso pessoal do trabalhador na empresa prossegue debilitado já que o indivíduo está submetido a fortíssimas pressões. Ninguém desconhece que hoje há empresas que só contratam trabalhadores que aceitem ter o telemóvel permanentemente ligado. Este tipo de relações gerou um comportamento de consumidor que nada tem a ver com as referências do século XX: consumo é puro prazer, nunca está ligado à cidadania; o que o consumidor quer são artigos a baixo preço, indiferente às condições de quem os produziu; nunca como hoje se esteve tão marcado pela marca nos bens que consideramos prestigiantes, nunca como hoje se podem adquirir bens que oferecem naturalmente mais de que uma pessoa irá utilizar (o iPod é o princípio dessa lógica demencial).

Richard Sennett considera que a nova ordem do poder assenta numa cultura cada vez mais superficial. Não se poderá viver eternamente em cultura debilitada, em que tudo é frágil. Poderá muito bem acontecer que a nossa próxima página nova seja o motim contra esta cultura debilitada.

Menopausa, essa nova etapa a meio da vida:

Moda, sedução, aparência física

Beja Santos

A sedução não nasceu com a sociedade de consumo, é uma constante da civilização e da cultura, mas na modernidade ganhou contornos que a tornaram um indicador obrigatório dos nossos valores. É que no mundo moderno as relações de produção são também relações de sedução, abarcando um universo inalcançável ao nosso olhar, nele cabem a actividade física, um culto de corpo com health centers. Institutos de beleza, solários, mil e umas próteses… estamos todos obrigados a seduzir em torno da dietética da cosmética e da estética. Esta sedução é um complemento natural das relações públicas, da arte de consumir, do show business, dos incitamentos ao narcisismo, ao culto da imagem, à apoteose da frivolidade, à indústria da moda.

Este é o universo mental e o espaço físico em que se movimentam todos os nossos cuidados pessoais. Mobilizam vastos e promissores sectores da indústria e dos serviços, estão ligados ao entretenimento e comunicação, são congeminados pelo marketing e podem promover hábitos arriscados. Como se passa a exemplificar.
Como observou Balzac “O homem que na moda só vê moda é um idiota”. Porque a moda é muito mais que a indústria têxtil e de calçado, é um viveiro de significações sociais, estéticas e morais, fundamenta-se na investigação (é o caso dos cosméticos) e surpreendentemente está na moda da investigação. Há 50 anos atrás, os estudos humanísticos e universitários em geral centravam-se nos signos pesados do homem – a alma, a política, a ciência, a economia, a consciência. A modernidade alterou tudo, agora andamos todos a descobrir a transcendência dos signos ligeiros como a moda, as aparências, o insignificante. A própria moda vive numa permanente tensão a defender-se das novidades. Porque estas, ao contrário das modas, são destituídas de continuidade histórica, vêm repentinamente, o mercado entra em euforia, mas esgotam-se misteriosamente, sem deixar rasto. Moda é a minissaia, uma corrente estética do cinema ou do teatro, uma nova atitude na arquitectura, um gosto musical organizado, um movimento literário. As modas explicam-se e têm coesão, são alvo da crítica e enquanto vigoram provocam antagonismo com outras modas. Porém, o tropel das modas obrigou a compromissos, a combinações. A própria economia se encarregou de estabelecer estados de concentração que obrigam a formas de diálogo entre as modas: é o que vemos na indústria do mobiliário, do automóvel ou do vestuário, ninguém aspira a criar uma moda que esmague outra, se a sociedade promove a diversidade cultural vive em diversidade de modas.
No entanto, o mercado também impõe as suas condições, exacerba usos e costumes e daí a segmentação do mercado, o aparecimento de estereótipos sexuais ou hábitos como o bronzeamento que podem trazer riscos graves à saúde.
Há 20 anos atrás , dir-se-ia impensável uma segmentação dos mercados com modas na roupa de grávidas, um mercado dos 0 aos 2 anos, seniores entre os 65 e 75 anos (incluindo turismo, spa, actividades de recreio, investimentos e aplicações financeiras) e dos 75 em diante, isto para já não falar dos jovens, dos adolescentes e das diferentes nuances do mercado dos adultos. Estabeleceu-se uma segmentação do mercado, com os seus nichos e, o que é mais grave, com a aceitação destas novas regras do jogo em que os pais consideram ser natural frequentar os tais estabelecimentos destinados a crianças entre os 0 e 2 anos. O mesmo se dirá da moda actual das meninas entre 8 e 11 anos que são induzidas a uma exibição precoce da sexualidade graças a um vestuário e a uso de adereços e maquilhagem que acentuam artificialmente uma afirmação adolescente, tudo baseado unicamente nas aparências. Há como que uma anestesia, parece que esta socialização é normal, transformando uma jovem numa mulherzinha, ora tudo foi lançado por uma lógica económica da segmentação dos mercados para inventar necessidades inúteis para impingir produtos também inúteis. Aliás, o fenómeno das Spice Girls veio reforçar esta manipulação sobre a aparência física e a verdade é que a moda parece ter ficado.
O bronzeamento não é só um objectivo da cosmetologia. Noutros tempos, quem tinha a pele tisnada pelo sol era tido como ordinário, o padrão de beleza era a pele de porcelana. Nos anos 30 do século passado ocorreu a revolução do bronzeado. Quem aparecia com ar bronzeado criava a aparência de dispor de dinheiro para passar férias numa praia ou na montanha. E foi assim que progressivamente se modelou a representação da beleza, por intermédio da moda e da comunicação social em que o que conta é o tom bronzeado.
São numerosos os estudos que mostram a importância da aparência física na relação com os outros: despertamos interesse ou indiferença aos outros, e por isso somos considerados ou rejeitados, em função dos traços do rosto, como nos vestimos, o nosso odor, o penteado, a imagem que despertamos, em suma. Ora o bronzeado parece em articulação da imagem que temos de nós próprios e os propósitos de sedução e da identidade que nos define. O mercado acolhe esta necessidade de bronzeamento: os homens são belos, desportivos, fortes e bronzeados; a boa imagem que damos aos outros pode ser valorizada pela pele tisnada e fomentada pelo imaginário de uma beleza bem sucedida. O reverso é a questão da saúde: a exposição solar excessiva (incluindo a dos solários) pode comprometer a saúde e favorecer o aparecimento do cancro cutâneo. As instituições de saúde, as associações de consumidores promovem alertas sobre o número de cancros de pele que tem vindo a aumentar exponencialmente nos últimos anos. Explica-se as limitações do protector solar, as vantagens de uma exposição solar moderada, como é que o sol deve ser um amigo e nunca um inimigo, como se deve escolher um bom filtro solar, etc. A própria Comissão Europeia emitiu uma recomendação relativa à eficácia e às propriedades dos protectores solares, todo com o objectivo de fazermos uma exposição solar segura que permita tirar partido de todos os benefícios do sol sem correr riscos desnecessários.
Com estes exemplos podemos ver que o fenómeno da moda não é inocente, que é indispensável promover um debate sobre atitudes que jogam contra o nosso corpo, que podem até fomentar perversidades (é o caso das meninas forçadas a aparentar uma maior idade) ou que colidem frontalmente contra a saúde.
Educar o consumidor é também dar-lhe ferramentas para ele reflectir acerca de algumas dimensões da moda que se voltam contra si próprios
As crianças e a publicidade aos alimentos e bebidas:

Que responsabilidade social?

Beja Santos

Dados científicos até hoje não refutados dão-nos a saber que o excesso de peso e a obesidade têm números alarmantes entre as crianças, em todo o espaço da União Europeia. Não é possível adoptar medidas que travem a pandemia da obesidade sem conhecer alguns factos indispensáveis: como actua o marketing agro-alimentar junto das crianças; como é que as crianças olham a comida; se é possível a educação do consumidor agir sozinha para melhorar os hábitos alimentares dos menores; se a deontologia que os anunciantes prometem na sua responsabilidade social é uma realidade. Vamos aos factos.

A aprendizagem das coisas da mesa

Aprender a comer não é só conhecer a diferença entre o doce e o amargo, o horário das refeições ou a importância dos nutrientes. Comer é mais que a fisiologia, comemos influenciados por elementos sociais, culturais e afectivos. Aquilo que aprendemos inscreve-se num quadro largo das nossas sensações, é daí que passamos para a percepção, comemos de acordo com o envolvimento social, moral, religioso e económico. Comemos igualmente com a informação que dispomos ao nível familiar e dos medias. A indústria agro-alimentar está ciente do seu papel e de que as suas mensagens são igualmente importantes para as outras empresas, para os encarregados e instituições de educação, para os profissionais de saúde e para os direitos dos menores.

O mercado infanto-juvenil que nos envolve é uma especificidade decorrente da alteração gradual da estrutura familiar a partir da sociedade de consumo, neles estão implicados: o poder aquisitivo dos menores, a sua influência na decisão das compras domésticas, no visionamento (crítico ou acrítico) das mensagens difundidas pelos medias com o objectivo de atrair os menores ao mercado de consumo.

Importa pois saber como é que o marketing procura conhecer melhor este rendoso alvo constituído pelo universo dos menores.

Marketing agro-alimentar e a criança

As escolhas alimentares das crianças são distintas das dos adultos. A criança depende de alguns factores afectivos que podem ser explorados ou orientados. Quando se diz que a criança é hedonista com a sua comida esta motivação é muito diferente da do adulto. O marketing conhece esta realidade. A criança tem tendência para privilegiar a carga visual da informação mesmo muito antes de saber ler o conteúdo dos produtos e das marcas. A cronologia desta aprendizagem sensorial tem a ver com a visão, o tacto e o gosto. Para procurar conhecer bem este consumidor, o marketing dispõe de vários modelos: procurar chegar à mãe antes ou ao mesmo tempo que o filho; autonomizar as relações pais/filhos, falando directamente à criança, dirigindo-lhe directamente a argumentação; cindir a relação entre pais e filhos, engendrando uma estratégia que seja mesmo embaraçante para os pais; comunicar directamente com o menor para que este interactue com os pais e os amigos. Sabe-se hoje que os menores mudam de preferência por sugestão do meio ou dos amigos. Especialmente nos grandes eventos de consumo, o marketing sente-se capaz de avançar directamente para o menor e dar-lhe o poder de pedir aos pais e influenciar os outros.

Como os menores podem ser influenciados pelo marketing

A satisfação e o prazer constituem os principais vectores de valorização dos produtos agro-alimentares destinados aos menores. É um prazer que procura seduzir através de 3 segmentos: saúde, gratificação, resultados práticos. Daí a comercialização destes produtos vir envolvida por uma roupagem de divertimento, inovação, humor, performance, autonomia. As marcas aparecem como elemento estruturante, mesmo que o marketing saiba que o menor oscila entre a fidelidade e a infidelidade à marca. A comunicação comercial procura resolver este óbice através de 3 grandes canais de comunicação: as promoções, a publicidade e os websites. O mais importante das promoções tem a ver com o reforço das relações afectivas do menor com o produto. A publicidade chama a atenção, procura mudar comportamentos, a marca chega através do divertimento, do prazer gustativo e da novidade; mais recentemente a internet é um media de grande implicação, é como se fosse uma comunicação directa entre as marcas e os menores, em que estes ganhassem personalidade e auto-realização falando com os fabricantes, ouvindo-lhes os seus argumentos sedutores.

Os pais e os educadores face a esta ofensiva do marketing

Como é evidente, há bastantes perplexidades quanto ao modo como as crianças se inserem no mercado de consumo e como são vulneráveis ao marketing. Que o são lá está a legislação que as procura defender: nas práticas comerciais irregulares, na publicidade televisiva, no código da publicidade. Há mesmo consenso que a educação do consumidor deve ser feita a partir da responsabilização da orientação parental, ensinando-se adultos e menores a descodificar as mensagens publicitárias.

Os anunciantes, temos que o dizer com frontalidade, sabem que a prazo vão ser cerceados no seu poder de comunicação com as crianças, sabem que a Comissão Europeia tem que actuar face ao problema gravíssimo de saúde pública. Dentro de anos, a publicidade aos menores vai ser limitada em diferentes media, noutros inteiramente proibida. Por isso, os fabricantes falam em comunicação responsável, em literacia e publicidade e até em educação para os media, tentam ganhar tempo antes que percam a condução directa da orientação dos consumos dos alimentos e bebidas. Aliás, paira no ar uma forte corrente que propõe medidas mais restritivas à publicidade dada a indiscutível gravidade da existência de estilos de vida em que a obesidade decorre do consumo de lixo alimentar difundido em mensagens televisivas, mesmo em programas destinados a crianças.

Formar e educar pelos media é insuficiente. A escola e os pais não dispõem, regra geral, de instrumentos que lhes permitam agir no quadro de valores, conhecimentos, modelagem das emoções, interferir na educação alimentar.

Os anunciantes falam em códigos deontológicos, mas a prática desmente essas promessas. Veja-se um exemplo refutável da situação portuguesa. O Observatório da Publicidade, no que cabe a 2008, divulgou um estudo que revela a necessidade de diminuir a pressão publicitária da indústria, dadas as conclusões verdadeiramente preocupantes a que chega a sua investigação: esta publicidade está em cerca de 72 por cento orientada para o consumo de alimentos hipercalóricos, são produtos açucarados apresentados numa atmosfera de atracção e diversão e em que o menor aparece em posturas francamente sedentárias.

Não há educação do consumidor que resista a esta ofensiva da indústria agro-alimentar, a auto-regulação é pura mentira, para encontrar respostas concretas às ameaças que impendem sobre a saúde pública é indispensável agir no quadro legislativo. Foi assim que se fez com o tabaco e os resultados, felizmente, saltam à vista.
Esclareça-se e previna-se

Beja Santos

Sim, uma nova etapa a meio da vida

A menopausa ocorre quando os ovários deixam de produzir hormonas femininas (estrogénios e progesterona), fenómeno que acontece, em média, por volta dos 51 anos de idade, e em que ocorre a cessação da menstruação. O momento preciso em que chegou a menopausa é estabelecido por retrospectiva, isto é, após um ano de amenorreia (ausência de menstruação) pode afirmar-se que teve lugar a menopausa. Deste dia em diante, a mulher encontra-se na pós-menopausa. No período de tempo que antecede a menopausa, que é uma fase a que correntemente se chama climatério, podem surgir irregularidades no ciclo menstrual (intervalo entre os ciclos, duração e fluxo), afrontamentos, suores nocturnos, entre outros sintomas. Devido a estas irregularidades podem surgir algumas gravidezes indesejadas.

Na verdade, a menopausa é um acontecimento natural da vida, não é uma doença ou uma disfunção. Os sinais e sintomas desta fase diferem de mulher para mulher, quer na intensidade como na sua duração, além da predisposição para problemas de saúde (osteoporose e doença cardiovascular), pelo que é necessário recorrer a tratamentos diferenciados.

Recorde-se que com a melhoria dos cuidados de saúde com o aumento da esperança média de saúde, é comum a mulher viver cerca de 1/3 da sua vida em pós-menopausa. O fundamental é prever este novo estado a meio da vida e saber como actuar. Há alterações com a menopausa susceptíveis de trazerem riscos para a saúde da mulher: a diminuição das hormonas femininas (especialmente os estrogénios) pode conduzir a um aumento do risco cardiovascular, uma vez que é comum nesta fase surgir hipertensão arterial e aumento dos níveis de colesterol, e a osteoporose, como resultado de uma diminuição da fixação do cálcio aos ossos. O médico deve ter um papel determinante na detecção precoce destas alterações, aconselhando a mulher a adoptar mudanças no estilo de vida e na instituição de terapêutica adequada.

Então, o que é que pode acontecer nesta fase da vida? Com a redução da produção de estrogénios e progesterona pelos ovários, podem aparecer sintomas como afrontamentos, suores nocturnos, noites mal dormidas, dores de cabeça, palpitações, secura vaginal, irritabilidade, depressão, alterações na vida sexual. Estima-se que cerca de 80 por cento das mulheres vão sentir alguns destes sintomas, que poderão durar meses ou até anos. Paralelamente, algumas mulheres podem perder a auto-estima, ou até sentir pânico com o envelhecimento, ao passo que outras se sentem mais libertas. O importante é que a mulher disponha de aconselhamento e encontre resposta para as suas dúvidas e uma explicação para o fenómeno que está na base de todas estas mudanças. Por exemplo, quando vê diferenças quando se olha ao espelho, como a pele esmaecida e o cabelo oleoso, o seu médico ou o seu farmacêutico dar-lhe-ão uma explicação cabal: há uma redução ou cessação na produção de hormonas femininas, concomitantemente o seu corpo passou a produzir pequenas quantidades de hormonas masculinas (androgénios), que vai conduzir ao excesso de androgénios em circulação, e daí surgir o cabelo oleoso, diminuição da espessura do cabelo, e até o aparecimento de pêlos em zonas indesejáveis. Ora, as alterações hormonais têm tratamento adequado.

O que é a terapêutica hormonal de substituição (THS)?

É obrigatoriamente prescrita pelo médico, e consiste na administração de medicamentos que repõem no organismo as hormonas que os seus ovários deixaram de produzir, total ou parcialmente: estrogénios e progesterona. Estes medicamentos são especialmente eficazes no alívio dos sintomas como os afrontamentos ou a instabilidade emocional, melhorando a qualidade de vida da mulher. Tal terapêutica está limitada no tempo, existem diferentes modos de administração sempre controlados pelo médico.

No passado, a THS era recomendada para praticamente todas as mulheres, não só para alívio sintomático da menopausa, mas também para prevenção da osteoporose e das doenças cardiovasculares. Porém, no início deste século alguns estudos envolvidos por muita celeuma revelaram existir uma relação entre a THS e o risco de cancro da mama, doença coronária arterial, trombose e cancro do ovário, pelo que se introduziram vários filtros e cautelas na sua prescrição.

Há vários tipos de terapêutica hormonal. Começando pelos contraceptivos orais, podem ser prescritos contraceptivos combinados (orais ou noutras apresentações) por representarem uma alternativa segura para mulheres saudáveis não fumadoras, estando os seus benefícios comprovados para a regulação da hemorragia uterina, a manutenção da densidade óssea e a redução do risco de tumor do ovário. Os contraceptivos com progestagénios podem ser uma alternativa para a contracepção em mulheres para as quais os estrogénios estão contra-indicados, caso de mulheres fumadoras, com hipertensão arterial ou diabetes.

Passando para a THS, esta revela-se como alternativa eficaz no tratamento dos sintomas vasomotores, na prevenção e tratamento da osteoporose e nos problemas urogenitais. Instâncias como a Agência Europeia do Medicamento recomendam que a THS deve ser feita apenas no tratamento de sintomas da menopausa, devendo ser utilizada a dose eficaz mínima no menor período de tempo possível. Temos situações em que a THS está contra-indicada (caso do cancro da mama, doença tromboembólica arterial, doença empática…), devendo ser administrada com precaução (caso de diabetes, insuficiência cardíaca ou renal, hipertensão…), competindo ao profissional de saúde estar atento às potenciais reacções adversas e dialogar com a sua doente acerca das interacções.

A Sociedade Portuguesa de Menopausa, que tem procurado reposicionar a THS fora das discussões acaloradas e do tratamento mediático sensacionalista, recomenda o tipo de exames a efectuar antes de se iniciar a THS (papanicolau, mamografia, ecografia ginecológica, perfil lipídico, densitometria), e recorda as suas contra-indicações e quais as situações em que a THS está a ser erradamente contra-indicada. A conversa com o profissional de saúde levará a compreender o grau dos benefícios do tratamento hormonal: diminuição dos afrontamentos, suores nocturnos, alterações de humor, insónias, secura vaginal, risco de osteoporose e fracturas, dificuldade de concentração, fadiga e falta de energia.

Menopausa, conhecimento da THS e mudanças de estilo de vida

Seja qual for a intensidade das manifestações da menopausa, a mulher tem tudo a ganhar em conhecer melhor o que é a THS e a adoptar estilos de vida mais saudáveis. Faz todo o sentido aproveitar esta nova fase da vida para rever os hábitos tabágicos, alimentares, bem como a prática de actividade física e a gestão do stress.

Sendo um período de transição na vida da mulher, poderá ser o tempo propício para reordenamentos dos estilos de vida, aprendendo novas atitudes que tragam mais alegria à existência. Para muitas mulheres, a menopausa é tempo de reconciliação, abre novas perspectivas, ensina a cultivar o sentido positivo e a tirar partido da alimentação saudável, leva ao abandono de vícios e excessos de consumos, instala uma actividade física que traz bem-estar e optimismo, melhorando o sono e controlando o stress, reorganizando e enriquecendo a sexualidade. É um tempo que favorece os prazeres saudáveis da mesa, o bom consumo do leite, da fruta e dos legumes frescos, da prática do exercício físico, de consumos moderados no álcool e das bebidas estimulantes, na comunicação mais intensa na vida do casal.

Ame as suas rugas
Beja Santos


O envelhecimento é um poderoso fenómeno actual que abrange o decisor político e o económico, as ciências médicas em geral e a saúde pública em particular, a segurança social, o mercado de trabalho…todos os impactos do envelhecimento, não há exagero em dizê-lo, afectam a sociedade inteira. É que as sociedades têm que saber responder a este premente desafio: saber dar mais qualidade ao tempo, mais qualidade de vida aos seniores, saber estabelecer vínculos estáveis entre as gerações (é o que se designa por solidariedade intergeracional).

O envelhecimento é um poderoso fenómeno actual que abrange o decisor político e o económico, as ciências médicas em geral e a saúde pública em particular, a segurança social, o mercado de trabalho…todos os impactos do envelhecimento, não há exagero em dizê-lo, afectam a sociedade inteira. É que as sociedades têm que saber responder a este premente desafio: saber dar mais qualidade ao tempo, mais qualidade de vida aos seniores, saber estabelecer vínculos estáveis entre as gerações (é o que se designa por solidariedade intergeracional).Porque é que envelhecemos? Ainda não se sabe ao certo qual a origem do processo biológico ou bioquímico do envelhecimento. São poucos os que sucumbem vitimados pelos processos fisiológicos da idade avançada. A maioria morre em resultado de um ou vários processos patológicos, mas as particularidades psicológicas e neurológicas também contam. É por isso que se diz que um sénior socialmente activo resiste ao isolamento e às obsessões, mesmo quando as limitações são fortes: resiste à perda de visão próxima, à redução da agilidade, ao andar por vezes penoso ou às modificações dos reflexos. Visto de outro anglo, o envelhecimento não é um estado mas um processo de degradação progressiva e diferencial, já que não envelhecemos todos da mesma maneira nem o processo é simultâneo para todo o corpo e espírito. Uma velhice bem sucedida tem vários critérios, a destacar: a longevidade, a saúde biológica, a saúde mental, a eficácia intelectual, a competência social, a conservação da autonomia e o bem-estar subjectivo. Tudo isto é fácil entender se soubermos que comportamos 3 idades diferentes: a biológica, a social e a psicológica. A biológica está ligada ao envelhecimento orgânico; a social aos estatutos e aos hábitos da pessoa, relativamente aos outros; a psicológica é referente às competências comportamentais que a pessoa pode mobilizar em resposta às mudanças de ambiente.

Por conseguinte, não envelhecemos da mesma maneira, há mudanças que são notórias outras menos perceptíveis, o fundamental é procurar obter sucesso no envelhecimento activo, cheio de projectos, gostando de nós e dos outros. Este envelhecimento bem sucedido reúne três requisitos fundamentais que devemos procurar preencher: reduzir as causas que levam à perda de autonomia, manter um elevado nível funcional nos planos cognitivo e físico; e conservar um bom empenhamento social que nos dê o mais elevado nível de bem-estar. Como refere o professor Fernando de Pádua: “Trabalho tanto ou mais do que antes em idoso, porque gosto; faço exercício físico todos os dias, tanto ou mais que antes; com muito gosto; e ao acrescentar nos tempos livres os passatempos que mais gosto, estou a preparar o meu entardecer, acreditando que é biologicamente possível atingir os 120 anos com saúde e findar tranquilamente numa tarde solarenga, com uma vela que se apaga”.

“Ame as suas rugas, aproveite o momento” (por Rosane Magaly Martins e Suleica Iara Hagen, Coisas de Ler Edições, 2008) é um manual de cuidados a ter no processo de envelhecimento, é um projecto em que procurar tornar o envelhecimento humano um processo natural, aceitável, agradável, completo e feliz. É um convite ao desenvolvimento da actividade física, aos cuidados de uma alimentação saudável, ao saber manter os preceitos higiénicos e estilos de vida que contrariem o stress ou a depressão.

Para quem leu o livro, o desafio fica ganho, já que todo o aconselhamento é um hino ao rejuvenescimento nas atitudes para saber lidar com o envelhecimento que nos dê mais saúde e dignidade. Ao longo dos diferentes capítulos, aprendemos a prevenir e nalguns casos prevenir e tratar: as alterações músculo-esqueléticas, de modo a retardar a perda de flexibilidade e diminuição dos movimentos; a osteoartrose e a osteoporose; a incontinência urinária; as alterações auditivas; a saber quais os indícios da depressão e a contrariá-los (quem se ama, cuida de si); os sintomas de diabetes e a adoptar um estilo de vida que contrarie esta doença ou, no caso de ela aparecer, saber tratar-se sem drama ou azedume; as carências nutricionais, adoptando um regime alimentar que iniba o advento de doenças ou deficiências que se repercutam na qualidade de vida; saúde bocal, já que a má condição da boca pode conduzir a doenças sistémicas e desintegrar o sénior da família e da sociedade; a actividade física, indispensável para dar mais vida aos anos; o stress, aprendendo a relaxar e a aproveitar tudo o que há de bom dentro de nós e à nossa volta.

Em suma, propõem os autores deste estimulante “Ame as suas rugas”, aprendemos qual o bom caminho para um envelhecimento saudável e feliz:

Não se adapte ao mundo, faça com que ele se adapte a si;
Não tenha medo do envelhecimento, assuma-o e viva em plenitude;
Desembaraçasse-se da imagem do velho, não viva para o mercado, faço com que o mercado viva para si e para os outros;
Faça novos amigos, participe em grupos da sua idade, saia de casa e viva o que o mundo tem para nos oferecer;
Envelheça respeitando-se a si mesmo e reivindicando para que o mundo entenda este processo como algo natural a toda a espécie humana;
Lembre-se, por mais que a morte pareça próxima, não morra antes de ela chegar…viva cada momento, assuma todos os riscos e seja um ser humano activo e feliz.

O insucesso da “Operação Valquíria”

Beja Santos

 

Ian Kershaw é considerado hoje como um dos maiores especialistas na vida de Hitler e do nazismo. É lastimável como a sua importante biografia “Hitler: Um Perfil do Poder” e “Estalinismo e Nazismo: Ditaduras Comparadas” ainda não estejam traduzidos entre nós. Operação Valquíria é o nome de uma conspiração preparada por militares da velha escola e civis descontentes com a tragédia alemã que se avizinhava e perpetraram a morte de Hitler. O texto referente a esta operação foi recentemente publicado entre nós, tendo sido retirado da monumental biografia em dois volumes sobre Hitler, de Ian Kershaw (Sorte do Diabo, por Ian Kershaw, Publicações Dom Quixote, 2009).

A partir do Verão de 1943, data da última grande ofensiva alemã na União Soviética, a estratégia possível passou a ser a defesa, mas sempre a averbar derrotas. Com a Primavera de 1944, o alto comando alemão não ignorava o desastre iminente: a abertura de uma nova frente no ocidente, a derrota italiana e o avanço imparável dos exércitos soviéticos a caminho da Polónia. Hitler culpava os generais e substituía-os a toda a hora. Vivia-se já o delírio de inventar exércitos, armas de destruição, de guerras entre os aliados. Hitler era o comandante-chefe das forças armadas, todos os oficiais lhe deviam lealdade, mas o descontentamento era indisfarçável, os civis aproximaram-se dos militares à procura de uma resposta que impedisse o caos total. Em Junho, dá-se o Dia D, os relatórios que chegam a Hitler, feito por duas sumidades, Rundstedt e Rommel, são arrasadores. Como já se tornaram um hábito, Hitler substituiu os marechais e continuava a prometer vitórias eloquentes. Nessa altura, Hitler reúne o seu estado-maior na Prússia Oriental, num reduto chamado a Toca do Lobo. Aí realiza em Julho várias conferências em participou um jovem oficial com uma pala num olho, o braço direito mais curto e sem dois dedos da mão esquerda. O oficial é o coronel Claus Schenk von Stauffenberg, chefe do estado-maior do exército da reserva. Em 20 de Julho, pelo meio-dia e trinta, ele colocou uma bomba-relógio que transportara na sua pasta no centro dos aposentos onde Hitler realizava a conferência. A bomba explodiu, causou danos graves a muitos dos presentes, Hitler sobreviveu, os conspiradores foram cruelmente mortos ou obrigados a suicidar-se.

Quais são, precisamente, os dados mais importantes que precedem esta tentativa de von Stauffenberg em matar Hitler?

O nazismo fizera prevalecer um Estado policial terrorista onde várias polícias podiam rapidamente detectar instintos de sublevação ou descontentamento. Acresce que a popularidade de Hitler conhecera quebras, mas ainda era muito forte. Os alemães, independentemente de viverem em ditadura de partido único, com feroz perseguição dos judeus, tinham assistido a quase renascimento do Império e de 1936 até 1941 viram as suas fronteiras a dilatarem-se em todas as direcções. Hitler era encarado como um homem providencial, alvo de um apoio fanático. Não havia uma oposição organizada contra Hitler, mas os militares que nada tinham a ver com a Gestapo ou as SS assistiam atónitos aos crimes mais atrozes, impróprios das convenções sobre a guerra: liquidação pura e simples de comissários políticos, massacres de judeus, execuções sumárias de pura retaliação, por exemplo. A partir de 1941, militares como o major-general von Tresckow perceberam que a Alemanha caminhava para a ruína, que o extermínio que estava a provocar se voltaria contra os próprios alemães. Vários pontos focais da oposição tinham começado a dar sinais de vida, juntando militares valorosos, ex-ministros e diplomatas descontentes. A crise de Estalinegrado veio pressionar a conspiração, levando os descontentes a prever o assassinato de Hitler. Os problemas de fundo que se punham eram essencialmente 3: o que fazer após a eliminação de Hitler para impedir que os seus fanáticos pretendessem prosseguir o sonho nazi; como chegar suficientemente perto de Hitler para levar a cabo o assassinato, já que os seus movimentos eram praticamente invisíveis; como sensibilizar e angariar mais revoltosos quebrando o pacto de lealdade com Hitler.

O historiador Ian Kershaw descreve a complexidade de pensamento que presidia aos sublevados: uns eram profundamente conservadores e pretendiam manter intocado o estatuto do Reich como grande potência dominadora; outros, de formação aristocrática, eram homens inspirados no idealismo e até nas filosofias socialistas e cristã, crentes do papel da grande Alemanha numa Europa federal, isto já para não falar em simples cristãos revoltados com a barbaridade do regime nazi. Era assim e não podia ser de outra maneira atendendo ao estado policial. Foram várias as tentativas para aniquilar Hitler até 20 de Julho, todas falharam. O conde von Stauffenberg também irá falhar por uma ironia: uma das cargas de explosivo não será activada, o que impediu uma deflagração que teria reduzido a Toca do Lobo a um completo escombro.

Seja como for, os planos da Operação Valquíria foram bem delineados, atendendo às dificuldades postas pelo secretismo: em Berlim, o plano dos revoltosos era inteligente e exequível, havendo a possibilidade, logo que Hitler tivesse desaparecido, ter prendido as figuras gradas do seu regime, substituindo o vértice do poder por homens de confiança de von Tresckow, Beck, Goerdeler, entre outros. A explosão foi bem sucedida, von Stauffenberg, ainda desconhecedor dos seus resultados chegou a Berlim, onde reina a confusão: uns dizem que Hitler tinha sobrevivido, mas há ainda um grande silêncio sobre os acontecimentos. Na confusão, não se tomaram as medidas devidas para paralisar os apoios dos fanáticos de Hitler. Quando von Stauffenberg chega ao reduto dos sublevados, ninguém sabe o que fazer, perdera-se irremediavelmente a iniciativa. O comandante do exército da reserva, general Fromm, inicialmente detido, assim que recebe apoios, manda prender os sublevados, e ordenou o seu fuzilamento sumário, entre eles von Stauffenberg e o seu ajudante de campo. Os acólitos de Hitler preparam de imediato o contra-ataque e ao fim do dia a sublevação estava completamente sufocada. Hitler falou de madrugada numa comunicação radiofónica, tendo referido “Uma pequena clique de oficiais ambiciosos, irresponsáveis e, ao mesmo tempo, criminosos e estúpidos, forjou uma conspiração para me eliminar e, ao mesmo tempo, erradicar comigo praticamente todo o estado-maior da liderança das forças armadas alemãs”.

A repressão será cruel. À medida que começavam a surgir pormenores da conspiração, Hitler gritava, colérico: “Tenho agora, finalmente, os porcos que têm sabotado a minha obra há anos. Agora tenho a prova: todo o estado-maior está contaminado.” Deu ordens para se criar um “Tribunal Militar de Honra” que iria expulsar os militares que tivessem envolvidos na conspiração, eles seriam enforcados com trajes da prisão e como criminosos. Será a primeira e última vez que Hitler irá imitar os julgamentos fantoches de Estaline. Nas semanas que se seguirão, um marechal, vários generais, muitos oficiais superiores e subalternos serão condenados à morte. A purga terá custado a vida a 2 mil pessoas. A paranóia pela segurança de Hitler aumentou. O argumento da contaminação dos oficiais do estado-maior que impediam as vitórias gloriosas da Alemanha durou pouco tempo. No seu círculo privado, Hitler começou a referir que o povo alemão dava provas de fraqueza e que talvez não o merecesse.

Fechara-se definitivamente qualquer hipótese de negociação para que a Alemanha se rendesse sem ficar em ruínas, com a perda de mais alguns milhões de vidas. Como sublinha o historiador Ian Kershaw, sucederam-se por toda a Alemanha grandes comícios em que centenas de milhares de cidadãos deram provas de alegria pela “maravilhosa salvação do Führer”.

Não vale a pena estar a especular sobre o que teria acontecido se a conspiração de 20 de Julho de 1944 tivesse tido êxito, tais e tantos são os cenários contraditórios. A resistência não apareceu, se bem que o regime tenha sido desafiado em profundidade. O caminho autodestrutivo no nazismo não tinha retorno, para o alemão comum o futuro era uma completa fatalidade. O fim estava a chegar, mas o fantasma de Hitler obscurecia qualquer saída. Os alemães revelaram-se obedientes, metódicos, resignados e apáticos. O cataclismo ocorreu entre Março e Maio de 1945, as grandes cidades alemãs estavam em ruínas, esperava-se a derrota a qualquer momento. A Operação Valquíria foi, contudo, o ponto elevado da resistência, à sua volta emergiram valores imorais esquecidos. Von Tresckow disse em Junho de 1944: “Já não é uma questão do objectivo prático, mas de mostrar ao mundo e à história que o movimento alemão de resistência ousou, com risco de vida, dar o golpe decisivo” no mês seguinte, von Stauffenberg revelou um sentimento que ainda hoje perdura na consciência deste conturbado povo: “É tempo de fazer alguma coisa. Mas o homem que tiver a coragem de fazer alguma coisa deve fazê-lo sabendo que passará a historia alemã como um traidor. Se não o fizer, porém, será um traidor da sua própria consciência”.

Este sugestivo texto inclui alguns dos documentos fundamentais para a compreensão da Operação Valquíria e as suas consequências.

O QUE O DIABÉTICO DEVE ESPERAR DO SEU FARMACÊUTICO

Beja Santos

 

O elementar da diabetes A diabetes é uma doença crónica. Contrariamente a uma ideia arreigada, as complicações dela decorrentes não se relacionam apenas com o aumento do açúcar no sangue (isto é, a glicemia elevada) mas com um conjunto de alterações como o colesterol e os trigliceridos elevados, hipertensão, obesidade, entre outras manifestações.

É por estas razões que a diabetes depende de muitos factores, obrigando ao tratamento de todos, em simultâneo. Esta doença, quando não controlada, é responsável por graves complicações, como sejam a insuficiência renal, a cegueira, as doenças cardiovasculares (angina de peito, trombose, enfarte, hipertensão…), amputações (de dedos dos pés e pernas) e diminuição da sensibilidade.

Vulgarmente, considera-se que existem dois tipos principais de diabetes: a chamada R20;tipo 1R21;, que é bastante comum em crianças, começando bruscamente e obrigando ao tratamento com insulina toda a vida, e a “tipo 2R21;, que não tem sintomas durante os primeiros anos, detectando-se frequentemente como consequência do aparecimento de uma complicação, por exemplo, uma trombose, um enfarte, a necessidade de uma amputação ou cegueira.

A diabetes tipo 2 abrange 90 por cento dos diabéticos. Surge habitualmente na idade adulta, embora nos últimos anos se tenham começado a detectar crianças com este tipo de diabetes, sobretudo devido a situações de obesidade.

Diagnóstico e prevenção da diabetes

Os factores que mais determinam o aparecimento desta doença são a existência de familiares com a patologia, a obesidade e a falta de actividade física. Calcula-se que já em 2000 existiam quase 200 milhões de diabéticos em todo o mundo, dos quais cerca de meio milhão no nosso país. A doença predomina ainda em países mais desenvolvidos, pelo facto de se relacionar com os estilos de vida que conduzem ao sedentarismo, excessos alimentares (caso dos abusos de gorduras e doces), bem como a obesidade.

A diabetes, pela sua extensão e complicações que provoca, deve mobilizar a sociedade no seu todo. A sua prevenção e tratamento exigem uma educação global da população para que se sigam regras, muitas delas em conflito com a sociedade de consumo, e daí a grande dificuldade em segui-las.

É possível prevenir a diabetes, mesmo em pessoas com familiares diabéticos, desde que consigam manter um peso ideal, praticar actividade física regular e terem em conta um regime alimentar adequado.

O tratamento do diabético é obrigatoriamente constituído por medicamentos e um quadro de medidas preventivas como as acima referidas. Como a diabetes tipo 2 tem um início silencioso, um dos grandes problemas que coloca relaciona-se com o diagnóstico tardio, pelo que é recomendável que todos aqueles que possuam os factores de risco atrás enunciados vigiem periodicamente o açúcar do sangue para que se inicie rapidamente o tratamento e se possa atrasar e evitar as complicações mencionadas.

Dada a necessidade de vigilância, educação e informação do diabético (ou das pessoas em risco de o ser), há mais de 15 anos que os farmacêuticos portugueses estão a colaborar com as equipas de saúde junto dos diabéticos. Esta participação integra-se nos cuidados farmacêuticos na diabetes e contribui para a melhoria do controlo do doente e prevenção de eventuais complicações.

Significado das comemorações de 2005: cuidados com os pés

Por recomendação da Organização Mundial da Saúde e da Federação Internacional da Diabetes, em 2005, a efeméride foi dedicada aos cuidados com os pés. E porquê? Porque se estima que uma estratégia coordenada possa reduzir as amputações de modo significativo (de 49 a 85 por cento).

A importância de se considerar como prioritária a questão das amputações resulta do facto de se saber que 70 por cento de todas elas serem consequência desta doença. Nos países desenvolvidos, cerca de cinco por cento dos diabéticos têm problemas com os pés, chegando a representar 40 por cento dos recursos em cuidados de saúde. A maioria das amputações começa com uma úlcera do pé. Calcula-se que um em cada seis diabéticos desenvolva uma úlcera no pé durante a vida, e que, na maioria dos casos, estas úlceras e amputações podem ser prevenidas. De facto, a generalidade das amputações pode ser evitada se houver um bom controlo da diabetes, uma vigilância regular e cuidados com os pés, bem como uma boa sensibilização dos doentes para tais cuidados.

No contexto das grandes mensagens do Dia Mundial da Diabetes de 2005, os cuidados com os pés passam por: observá-los diariamente e recorrer de imediato a uma consulta médica se notar qualquer pequeno ferimento (ferida, corte, bolhas, unhas encravadas, alteração da cor, inchaço, etc.); a sola dos pés é mais facilmente observada com o auxílio de um espelho; deve haver muito cuidado com o calçado que se usa (que deve ter uma base larga, sem costuras interiores, e ser bem ajustado, ou seja, não pode ser largo, apertado ou bicudo); antes de calçar o sapato, deve passar a mão por dentro para detectar alguma irregularidade (como rugosidades) pois esta pode causar ferimentos que, por serem indolores, passam despercebidos; não devem usar chinelos nem sandálias, pois pode haver uma maior exposição do pé; as meias devem ser de algodão ou lã, para permitir uma maior respiração da pele (não devem ter costuras ou estar passajadas e os elásticos não devem ser apertados).

Obviamente que a higiene dos pés (lavagem diária) é fundamental, assim com uma secagem suave com uma tolha macia, não esquecendo o espaço entre os dedos. A aplicação de uma loção amaciadora é um cuidado a observar todos os dias para que a pele se mantenha macia e hidratada e se evitem gretas ou outros ferimentos.

As unhas não devem ser cortadas com tesoura, mas sim limadas a direito com uma lima de cartão (para evitar ferimentos). Se existirem calos, estes também devem ser limados, estando totalmente contra-indicado o uso de calicidas, qualquer que seja a sua forma.

Os pés não devem ser postos de molho em água quente, porque a pele fica mais frágil e predisposta a feridas. É também totalmente desaconselhado dormir com botijas de água quente na cama, que devem ser removidas à hora do deitar.

O aparecimento de qualquer pequena ferida num pé obriga a uma consulta médica imediata. O diabético não deve tratá-la pelos seus próprios meios, porque num curto espaço de tempo essa ferida pode infectar gravemente e ter como consequência a necessidade de uma amputação.

Recorde-se ainda que a compra de calçado deve fazer-se ao fim do dia, quando o pé está mais dilatado e que antes de vir para a rua o sapato deve ser utilizado várias vezes em casa durante pequenos períodos, para que haja uma boa adaptação.

O aconselhamento farmacêutico

O farmacêutico português está integrado num protocolo com o Ministério da Saúde e a Ordem dos Farmacêuticos através do qual se prontifica a colaborar na melhoria dos cuidados com os doentes diabéticos, contribuindo para a detecção da doença e para o controlo do açúcar no sangue.

Neste sentido, o diabético pode recorrer à sua farmácia habitual, na qual receberá auxílio e informações necessárias relativamente aos tratamentos com os medicamentos, aos cuidados com a alimentação e a actividade física. Pode também esclarecer dúvidas quanto aos cuidados com os pés e à vigilância regular do açúcar no sangue que permite analisar o grau de controlo da doença.

Se o leitor for diabético ou suspeitar que o é, não hesite em usar e abusar do aconselhamento farmacêutico.

Medicamentos, álcool e condução:
O que os doentes devem saber

Beja Santos

É facto que um grande número de doentes crónicos conhece perfeitamente as suas limitações em conduzir sobre a acção de medicamentos que lhes reduzem a atenção e, portanto, lhes afectam a condução e segurança. São doentes responsáveis ou esclarecidos que têm formação sobre os medicamentos que afectam a condução, caso de analgésicos que provocam sonolência ou sedação, antidepressivos responsáveis pela visão turva ou ansiolíticos que diminuem a concentração. Mas a lista destes medicamentos é muito mais numerosa.

Todos os doentes deviam conhecer as diferentes interacções entre álcool e medicamentos. Porque há medicamentos que provocam alterações na capacidade de reacção e na visão dos condutores, alterações essas que podem ser agravadas pela ingestão de bebidas alcoólicas. Os efeitos dos medicamentos sobre quem conduz são por si só frequentes, embora com manifestações diferentes. Mas há medicamentos que afectam a condução, reduzindo os reflexos e provocando o torpor ou provocando alterações comportamentais (caso dos calmantes, dos indutores de sono, dos anti-histamínicos, dos medicamentos para a epilepsia e hipertensão) modificando a acuidade da visão (pode ser o caso dos medicamentos que se utilizam para alivio das cólicas e de alguns antidepressivos).

Como é evidente e bem sabido, as bebidas alcoólicas potenciam os efeitos dos medicamentos. Vejamos alguns dados. Há medicamentos cujos efeitos se prolongam durante horas (é o caso dos anti-inflamatórios, dos tranquilizantes e dos anti-hipertensores). Os soníferos e os tranquilizantes que, regra geral, se tomam à noite, ao deitar, mantêm os seus efeitos sobre o sistema nervoso até ao dia seguinte, diminuindo o estado de atenção e os reflexos. Conduzir qualquer veículo reveste-se riscos acrescidos, os reflexos estão diminuídos. Convém esclarecer que nem todos os medicamentos têm as mesmas contra-indicações face ao álcool. Casos há em que a ingestão de álcool, numa proporção adequada até melhora os efeitos farmacológicos de alguns medicamentos (é o caso dos que servem para tratar a hipertensão arterial).

De acordo com a legislação europeia relativa à rotulagem e folheto informativo dos medicamentos, é obrigatório destacar claramente as interacções medicamentosas com álcool, tabaco ou alimentos.

Havendo uma diversidade de medicamentos com comportamentos muito variáveis perante o álcool, convém corrigir as posições extremadas, pelo que se recomenda que o doente se informe junto do seu médico ou farmacêutico sobre se pode ou não ingerir bebidas alcoólicas e em que condições pode conduzir. Na verdade, há medicamentos que durante a condução provocam alterações de comportamento, o condutor pode muito bem ignorar o poder induzido pela associação do álcool por certos medicamentos.

O álcool ingerido em pequenas quantidades é aceitável e pode gerar boa convivência. Por isso, não deve ser encarado como um tabu mas como uma prática social admissível, convindo que o médico ou o farmacêutico esclareçam devidamente o doente.

O leitor saberá que:

São poucos os antibióticos que obrigam a não ingerir bebidas alcoólicas durante o tratamento?

A toxicidade para o fígado do paracetamol é maior quando se ingere álcool em grandes quantidades?

Os medicamentos que toma para se acalmar diminuem a sua capacidade de raciocínio, os reflexos e a concentração na condução e a realização de tarefas de precisão, quando ingere álcool?

Tal como na situação anterior, os medicamentos que toma para as alergias reagem da mesma forma com o álcool?

Os medicamentos para o reumatismo, dores e febre têm um efeito muito intensificado se a caso ingerir bebidas alcoólicas?

Alguns medicamentos para a diabetes, se beber álcool, podem provocar reacções de tal forma graves que ponham a vida do doente em risco?

Todas estas interrogações podem ser adicionadas às preocupações atrás manifestadas com a condução. Há inquéritos preocupantes que revelam que é elevada a percentagem de condutores que declaram estar medicados para tratar a depressão ou a ansiedade e não conhecer os efeitos na condução. Conhecem-se hoje resultados trágicos de acidentes de viação em que o condutor manifestamente havia ingerido algum tipo de medicamentos com efeito psicoactivo.

A educação rodoviária e a educação para a saúde deviam apostar mais nesta informação básica, contribuindo para formar os consumidores sobre os medicamentos que possam pôr em perigo a capacidade para conduzir veículos, enumerar as diferentes interacções entre álcool medicamentos e condução, a necessidade de qualquer um de nós antes de começar um tratamento de se informar sobre a ingestão do álcool e os seus efeitos sobre a condução. Trata-se de um processo formativo que salva vidas, previne desastres completamente evitáveis e, em última instância, melhora os nossos padrões de saúde.

Literacia em publicidade: uma análise a não perder

Beja Santos

 

A publicidade constitui um dos mais importantes organizadores de todo o espaço social. É uma ferramenta do marketing, os anunciantes chama-lhe a força das vendas, depois de 60 anos de sociedade de consumo têm apoiantes entusiastas e críticos demolidores: falando da ideologia do consumo, é sobre esta comunicação que recaem os hossanas ou os vitupérios, ela até pode ser tomada como um bode expiatório ou o incenso e mirra dos bons negócios.

A partir do momento em que passamos de uma civilização de escolha profunda para a hiperescolha, consumir deixou de ser uma actividade limitada pelas necessidades reais para se transformar num processo complexo de interacção e comunicação social. Não admira, pois, que estando a maior parte dos produtos e serviços orientados para a satisfação de necessidades não objectivas, de natureza psicológica, sociológica e cultural, e geradores de um consumo baseado em valores e atributos, a comunicação publicitária passou a usar códigos que se prendem com este universo civilizado do mundo, cuja iconografia se caracteriza: pela personalização dos objectos e serviços; pela proposta de satisfação imediata; pela mercantilização dos modos de vida; pela utilização da pessoa sempre como sujeito do consumo e não como força produtiva. Sendo o consumo o ponto de intersecção de diferentes lógicas (valor de uso, valor de troca, troca simbólica e valor-signo) compreende-se que a sua análise é indispensável entre concorrentes e deve ser analisada pela multidão dos seus consumidores, já que a educação pelos media é hoje consensualmente aceite com uma base da consciência crítica de que o homem livre deve ter face ao consumo.

Eduardo Cintra Torres é o único especialista que tem um espaço de crítica à publicidade a seu cargo num jornal diário. O que ele faz há uns anos a esta parte no Jornal de Negócios é tomar uma mensagem e fazer a sua análise concreta reflectindo com alguns suportes das ciências sociais e humanas. O seu olhar pessoal não é uma crítica ao consumo que possa ser impulsionado por este ou aquela mensagem publicitária, ele pega na estética, mede os sinais dos tempos, interpreta os códigos, questiona os resultados. Porque uma mensagem, num mundo que nos cerca com milhões de mensagens, ou tem impacto ou não tem, vai ao nosso encontro ou passa-nos despercebida. A publicidade só informa sobre a existência dos produtos, é sugestiva a tal ponto que consegue iludir todos os aspectos que nos sejam desinteressantes, deixa permanentemente em aberto todas as perguntas a que ela nunca responderá, remetendo-nos para o vendedor do produto. Os livros de Eduardo Cintra Torres são indispensáveis para a literacia em publicidade (”Anúncios à lupa”, por Eduardo Cintra Torres, Editorial Bizâncio, 2006, e “Mais anúncios à lupa”, Editorial Bizâncio, 2008).

Vejamos alguns aspectos desta literacia que o especialista nos propõe. Primeiro, o produto no seu lugar ou espaço. Os rostos são indispensáveis como espelhos, testemunho, revelam-se surpresa pelo bem de consumo que acaba de chegar. Segundo, tornar conhecido o produto recorrendo a um rosto conhecido em que até o próprio jogo do corpo pode chamar a atenção para dentro do anúncio. Terceiro, a mensagem comunica prendendo-se ao objecto da comunicação: relógio, câmara de filmar ou perfume. A retórica é polivalente: sensualidade, prestigio, comodidade como benefícios esperados. Quarto, a articulação quase ergonómica entre o veículo automóvel e a expectativa do condutor. Quinto, a exploração do choque para vender um conceito, que fica ou não fica de acordo com a capacidade do criativo. Sexto, um jogo de equilíbrios entre a natureza, a franca convivência ou a sociabilidade, um produto típico ou outro que se pretenda fidelizar recorrendo à garantia dos valores genuínos. Sétimo, a exploração de logótipos ou de atributos faz vender uma causa seja um campeonato de futebol seja para combater a fuga ao fisco. Oitavo, a receita do sexo, com recurso ao glamour à imagem semi-velada das promessas associáveis entre a relação sexual e o produto.

A literacia em publicidade neste conjunto de apontamentos à volta de mensagens que o autor considera bem ou mal sucedidas não passa por um registo ou catálogo de tendências da publicidade. Não é por esta leitura que ficamos a saber o peso que tem hoje o consumo dos automóveis, telemóveis, alimentos, bebidas alcoólicas, turismo ou cosméticos, por exemplo. O seu olhar não é ético, é estético, sem deixar de interrogar os diferentes efeitos do aparato iconográfico utilizado. Obrigada a promover uma frase ou um slogan no contexto de uma imagem onde o leitor encontrará acolhimento ou repulsa, Eduardo Cintra Torres questiona os sucessivos elementos deste encadeamento de anúncios, o que eles representam, a sua eficácia, se dentro do campo do anúncio as diferentes linhas, como na tela do artista, são talentosamente exploradas para dar a figura que retemos ou que esquecemos. Isto tem a ver com o mobiliário ou imobiliário, cereais de pequeno-almoço ou cadeias radiofónicas. Analisa a mensagem global ou aquelas quem de disparar em várias direcções, problematiza os anúncios controversos, a publicidade dentro dos conteúdos, as marcas que não falam de produtos, tudo isto sempre com o juízo sobre o peso da criação publicitária e o acolhimento possível que lhe podemos dar.

Não hesito pois em dizer que estes livros deviam ser material obrigatório em todos os cursos na órbita das ciências da comunicação. A publicidade é uma disciplina auxiliar nos negócios mas é um veículo cultural. É muito menos dominadora do que os seus detractores pensam. E é uma comunicação por vezes muito mais luminosa que o próprio produto apregoado. É tempo de fomentar a literacia em publicidade, é tempo de desdramatizar esta força de vendas, é tempo de aprender a gostar de ver os anúncios à lupa.

Eça de Queiroz, o maior personagem de si próprio

Beja Santos

 

A correspondência de Eça de Queiroz em dois volumes, uma edição que conta agora com cerca de 900 cartas, algumas delas inéditas, com o cotejo apurado de todas as cartas com os manuscritos e fac-similes disponíveis a cargo daquele que é seguramente o nosso maior investigador queirosiano, foi um dos acontecimentos editoriais mais significativos do final de 2008 (Eça de Queiroz, Correspondência, 2 volumes, Organização & Notas de A. Campos Matos, Editorial Caminho, 2008).

O organizador justifica-se em nota preliminar: “Esta nova edição da correspondência de Eça pretende reunir todas as cartas até agora conhecidas. Urgia fazê-lo, já que a mais completa edição da correspondência do escritor, da Imprensa Nacional, se encontra há muito esgotada e também porque, entretanto, surgiram algumas dezenas de novos espécimes. Há que referir a importância biográfica e literária que a correspondência ocupa na obra queirosiana: e seja aí o humor, a graça, o espírito crítico e a inteligência de um epistológrafo excepcional, que inúmeras vezes nos surpreende pela modernidade da sua linguagem, dando-nos preciosas informações quanto à sua especial idiossincrasia, quanto à evolução dos seus projectos e da sua arte, quanto aos episódios da sua vida sentimental, quanto à génese das suas obras e ainda quanto aquela área, não menos importante, das suas relações com os editores e as edições”.

É uma correspondência como não há igual na literatura portuguesa, dificilmente se encontra outro autor que se transmuda e disfarça nos seus personagens ou estes são invocados em singulares nacos de prosa enviados a familiares e amigos. Como observou Andrée Crabbé Rocha, “Nenhum outro escritor português dá, como Eça, a quem lhe lê as cartas, a impressão de estar a ler um romance. Dir-se-ia que continuam a falar por sua boca o Raposão, Ega, Jacinto, quando não S. Frei Gil”. Eça e os filhos, Eça e noiva e a mulher, os amigos íntimos, os funcionários ou ministros dos negócios estrangeiros, entre outros, é uma relação de invulgar qualidade literária, a vida num romance, tudo desnudado desde a falta de dinheiro aos problemas de estômago que o acabariam por vitimar, aos 55 anos. Campos Matos enumera o historial das diferentes edições das cartas de Eça, a começar por o seu biógrafo Antonio Cabral, logo em 1916, passando pelas 84 cartas graças ao filho, José Maria, em 1925. Tudo somado, o destaque vai para os trabalhos de Beatriz Berrini (primeiro as cartas de Eça para os filhos, e depois, em 2000, a correspondência de Eça conhecida ao tempo), Alan Freeland (correspondência consular) e Paulo Francherri (correspondência de Eça com Oliveira Martins).

São dois volumes que respeitam a cronologia, no essencial, o que permite acompanhar a evolução psicológica do escritor. Eça enquanto personagem de si próprio está finalmente disponível à luz das cartas que se conhecem. Mas o tesouro literário pode escapar a essa regra, poderá ser por aí que o leitor se quer entusiasmar com o Eça convencionado às obras-primas estudadas desde os bancos da escola. Vamos às epístolas que falam do homem às vezes disfarçado de grande escritor.

O primeiro exemplo vem de um trecho de uma carta envidada à filha: “Minha querida Maria, O Papá não tem escrito à sua querida Maria porque tem andado num passeio muito bonito com a tia Benedita. Mas tem pensado muito na sua Maria, e tem gostado de saber que ela suporta muito bem e que está com muito juízo. Já sei que tens uma galinha e que dá ovos. Os primos aqui têm galinhas e perus, e pombinhas. Os primos estão muito bonitos, e perguntam sempre pela Maria. A priminha pequena, a Matilde, é muito engraçadinha, e tão pequenina que parece uma bonequinha. O Papá quer levar um anelzinho à sua Maria, mas quer ter a medida do seu dedinho”. Esta ternura do pai, esta carga afectiva não entra na correspondência aos amigos. Vejamos dois trechos de cartas de Lisboa e Havana que dirigiu a Jaime Batalha Reis. Assim explode na primeira: “Caro infame, Onde? Quando? e como? Onde – isto é – aqui no grémio? No campo pequeno? Na baixa? No país das quimeras?… Quando – isto é – De noite? Ao meio dia? Ao crepúsculo? Ao romper do dia? Ao cantar o cuco? Como – isto é – com kirschs? Com genebra? Com carrascão a 25 o quartilho?”. E na capital de Cuba: “Querido e lembrado Jaime, Se a felicidade não tem história – o pensamento de certo tem-na. Assim não te pergunto o que fazes: - és feliz, sei-o. Mas pergunto: O que pensas, em que trabalhas, que preparas, o que estudas, em que te fixas? Responde. Os meus respeitos a tua mulher e minha senhora – e tu, distraído amigo, fiel e inesquecível camarada – recebe, através da larga Água – como diz Dickens, um longo e interminável abraço”. De Newcastle escreve assim a Ramalho Ortigão: “Meu querido Ramalho, Deixe-me empregar toda esta larga e burguesa folha de papel Abelheira – em lhe dizer como eu estou descontente consigo, por ter seguido os seus maus exemplos e não ter até agora mandado ao meu melhor amigo – nem um simples vale ciceroniano”. Mas este registo muda radicalmente quando se dirige ao ministro Andrade Corvo quando, em Newcastle, informa sobre a guerra dos mineiros de carvão e fala das desinteligências entre patrões e operários. O que fascina é o relato corresponder ao seu mistério mas o Eça genial aproveita a situação e subverte o estatuto do relatório podo-o ao serviço da melhor literatura, assim “6000 homens que num descampado gritam e se exaltam, pensam naturalmente que o mundo lhes pertence. Os chefes compreenderam isto e tiveram uma ideia inteligente: - evitar o entusiasmo, e recorrer à tranquilidade de uma votação. Fizeram então uma espécie de plebiscito: cada um dos 20 000 operários que estavam em greve recebeu um papel em que estava impressa a seguinte pergunta: É pela arbitragem? Sim, ou não? Sucedeu o que era natural: a exaltação dos meetings tinha-se desvanecido. Cada operário, acalmado, tinha de responder a esta pergunta terminante: - se votava pela greve – o que significava três meses, ou quatro meses, de fome – ou pela arbitragem o que trazia o trabalho imediato, e o salário, até definitiva resolução da questão. E os mesmos que tinham vociferado no entusiasmo dos meetings contra a arbitragem, não se atreveram no meio da família, e a sangue frio, a votar, – a greve, isto é a miséria das mulheres e das crianças. Uma maioria esmagadora votou a arbitragem. O tribunal instalou-se – e os seus trabalhos progridem.”

É este o Eça desafiado pelo retrato monumental da sua correspondência. Não a percam, é leitura obrigatória para confundir em definitivo o homem que se disfarçava de escritor e o escritor que não escondia a ninguém o seu talento literário.

O apocalipse dos trabalhadores

Beja Santos

 

Há quem viva a imaginar, ou acredite mesmo, piamente, que este país está depressivo, acabrunhado, a viver um longo e irremediável eclipse. A realidade desmente tal sinistralidade e decadência e todos aqueles que confundem as suas decepções e inquietações com a marcha que paulatinamente fazemos no interior do território e fora dele. Parece que continuamos a ter dificuldade em aceitar os nossos êxitos individuais e grupais, teimamos em acreditar nos nossos cientistas, empresários, músicos, artistas plásticos de sucesso. Parece mesmo que nem queremos olhar à volta e sentir as transformações. Mudámos radicalmente a fisionomia do país, nos últimos 30 anos: temos melhor estradas e melhores transportes: democratizámos a educação e a saúde, as estatísticas comprovam-no e andamos nas ruas a ver pessoas que vivem mais e que gozam de mais conforto e bem-estar; é evidente que nem tudo corre bem, o que é natural numa sociedade dinâmica que se libertou de uma agricultura arcaica, que se desfez de pequenas indústrias sem saída, estamos dominados pelo espectro de um Estado que continua a sobrepor-se à nossa capacidade de iniciativa. Passando do geral para particular, somos incapazes de exaltar a nossa literatura e até a que se escreve em português, motivo de júbilo e orgulho: só este ano apareceram nas livrarias obras-primas como “A sala magenta”, de Mário de Carvalho, “Venenos de Deus, remédios do Diabo”, de Mia Couto, “O arquipélago da insónia”, de Lobo Antunes, “O apocalipse dos trabalhadores”, de Valter Hugo Mãe, ou “A viagem do elefante”, de José Saramago. José Saramago já nos tinha advertido do fenómeno Valter Hugo Mãe quando escreveu a propósito de outro seu romance, “O remorso de baltazar serapião”: “Este livro é um tsunami, não no sentido destrutivo mas da força. Foi a primeira imagem que me veio à cabeça quando o li […] Quando foi publicado? E os sismógrafos não deram por nada? Oh que terra insensível: este livro é uma revolução”. Como Valter Hugo Mãe traça em “O apocalipse dos trabalhadores” um retrato do nosso tempo, vem a propósito reflectir sobre o modo como somos grandes e simulamos uma grande angular de amargura, como se o país estivesse no fim da linha.

O que nos descreve “O apocalipse dos trabalhadores”? Escreve-se na contra-capa: “A Maria da Graça – mulher-a-dias em Bragança esquecida do mundo – tem a ambição, não tão secreta como isso, de morrer de amor; e por essa razão sonha recorrentemente com a entrada no paraíso, aonde vai à procura do Sr. Ferreira, seu antigo patrão, que, apesar de sovina e abusador, lhe falou de Goya, Rilke, Bergman ou Mozart como homens que impressionaram o próprio Deus. Mas às portas do céu acotovelam-se mercadores de souvenirs em brigas constantes e São Pedro não faz mais do que a enxotar dali a cada visita. Tal como a Maria da Graça, todas as personagens deste livro buscam o seu paraíso; e, aflitas com a esperança, ou esperança nenhuma, de um dia serem felizes, acham que a felicidade vale qualquer risco, nem que seja para as lançar alegremente no abismo. O apocalipse dos trabalhadores é um retrato do nosso tempo, feito da precariedade e dessa esperança difícil. Um retrato desenhado através de duas mulheres-a-dias, um reformado e um jovem ucraniano que reflectem sobre os caminhos sinuosos do engenho e da vontade humana num Portugal com cada vez mais imigrantes e sobre a forma como isso parece perturbar a sociedade” (O apocalipse dos trabalhadores, por Valter Hugo Mãe, QuidNovi, 2008).

Ora o que este livro assombroso descreve é a exaltação da mudança e a tensão que acompanha as grandes mudanças no quadro dos valores dos portugueses. Não basta dizer que mudámos radicalmente nos últimos 30 anos, nos comportamentos familiares, no uso do dinheiro, nas aspirações profissionais. Somos mais exigentes, circulamos pela Europa e de modo natural. Há dias, estava numa reunião na Universidade de Tallinn, olho para uma parede e vejo fotografias da Bemposta, uma aldeia em pedra da Beira Interior, ali para os lados de Penamacor, fotografias da autoria de Bruno Melão. Pessoas de 27 países olhavam com assombro essa Bemposta de pedra, lá para os confins da Europa. Os discos de Madredeus e da Mariza vendem-se no aeroporto de Helsínquia. A Maria João Pires pode abrir a temporada de concertos da Velha Ópera de Frankfurt e no museu das belas artes de Leeds Paula Rego está ao lado de Francis Bacon. Somos ambiciosos como a Maria da Graça, por isso emigramos para as inglaterras, irlandas e suíças, procuramos paraísos e nem todos ficam confinados ao consumo. Nos inquéritos e nas sondagens revelamos que a nossa exigência dá pelo nome de querermos mais respeito pela pessoa humana e queremos que respeitem a nossa vontade individual. O que Valter Hugo Mãe deixa transbordar em linguagem metafórica é que lançamos mão a tudo para conquistar o nosso lugar na mudança social: vamos rompendo com os preconceitos, detestamos a solidão, reinventamos amuletos, Maria da Graça e Quitéria fazem de carpideiras para ganhar 50€, igualmente nós lançamos mão a múltiplas formas de tachos, ganchos e biscates. A despeito das discriminações sociais, aculturamos e não só com gente que vem das ex-colónias. Aquele jovem ucraniano que vai beneficiar dos favores sexuais da Quitéria irá descobrir o amor e novos vínculos que superam as meras relações de ocasião. O Sr. Ferreira podia ser muito bruto e animalesco com a Maria da Graça mas tratou-a como sua herdeira. Os costumes mudaram em Bragança, já ninguém apedreja as mulheres que dão o corpo aos homens fora do matrimónio. As mulheres descritas por Valter Hugo Mãe são determinadas, lutadoras, tolerantes e corajosas, lançam-se à vida e rompem com o passado. Li maravilhado “O apocalipse dos trabalhadores” como o país da coragem, das vaidades e contradições, onde a Etelvina recebe hospitaleiramente, tal como nós, e não só em Vila Flor. É um livro de gente crescida onde Glória, irmã de Quitéria, regressa à procura de uma segunda oportunidade. Claro que nem todos vão alcançar a felicidade mas há quem se lance alegremente no abismo e quando aparece um rafeiro logo se põe o nome de Portugal. O livro de Valter Hugo Mãe deve encher-nos de orgulho, pela luminosidade, pelo fertilizante da escrita, pelas catapultas que lançam o mundo arcaico directamente no futuro. Para quem está céptico sobre a grandeza dos nossos vultos, ou acredite, mesmo piamente, que estamos acabrunhados e a caminho do eclipse, talvez se revele indispensável conhecer o que escreve Valter Hugo Mãe.

O “Anjo Negro” do PCP na clandestinidade

Beja Santos

 

Irene Flunser Pimentel é uma historiadora que nos anos mais recentes se tem revelado particularmente activa na análise de instituições do Estado Novo ou de fenómenos colaterais do maior relevo, nessa época. É o caso de: história da PIDE/DGS, as organizações femininas do regime de Salazar, a Mocidade Portuguesa Feminina ou os Judeus em Portugal durante a Segunda Guerra Mundial. O seu trabalho mais recente “Biografia de um inspector da PIDE, Fernando Gouveia e o Partido Comunista Português” (editado por A Esfera dos Livros, 2008) não fica atrás na importância dos outros estudos publicados e que lhe mereceram o Prémio Pessoa 2007. Fernando Gouveia (1904-1990) era um homem baixo, de rosto fechado, meticulosamente indumentado, extremamente vaidoso, medularmente salazarista e que se tornou num dos investigadores da PVDE/PIDE/DGS mais temidos (e naturalmente mais odiado) pelos militantes e quadros dirigentes do PCP. Ao biografar o Inspector Gouveia, a historiadora permite-nos conhecer melhor o que move um carrasco que entrou nas estruturas da informação ainda no tempo da Ditadura e que se entregou sem protesto a uma força militar na Rua António Maria Cardoso, na manhã de 26 de Abril de 1974, narrativa que vai a par dos eventos que acompanham a história do PCP na clandestinidade. Com a chegada da democracia, Gouveia será entregue à Comissão de Extinção da PIDE/DGS e as suas revelações não deixaram de fazer estrago ou trazer discórdia, um pouco à semelhança do que ele fizera no interior do aparelho do PCP, durante décadas. Quando passou de algoz a prisioneiro, disparou insinuações graves e mentiu, como é próprio dos carrascos. Os dados comprovaram que espancou, torturou e infligiu toda a casta de sofrimentos, sempre com a máscara afivelada de funcionário meticuloso que se pautava pela eficiência, incansavelmente à procura de estar um passo à frente sobre as técnicas que o PCP adoptava nas diferentes fases da sua clandestinidade.

A historiadora descreve a entrada de Gouveia nos serviços da Ditadura e do desenvolvimento do PCP nesse tempo. Cedo, o meticuloso Gouveia adere à doutrina salazarista mesmo que se mantenha toda a vida anticlerical e até desprezando algumas instituições do Estado Novo, como a Legião e a Mocidade Portuguesa. Gouveia vê nascer a capacidade de mobilização do PCP, a disseminação da sua imprensa, as jornadas de protesto, o aparecimento do Socorro Vermelho Internacional, enfim, toda a década de 30 é pontuada pela passagem da ditadura militar ao poder autocrático de Salazar, à ascensão do comunismo internacional, à resistência da velha escola republicana e às novas redes do PCP. Irene Flunser Pimentel escreve o nascimento da organização corporativa e a luta do PCP contra a fascização do Estado Novo, os actos bombistas, as prisões e as fugas dos quadros do PCP, a notoriedade de Álvaro Cunhal que passa a ter um papel indiscutível com a reorganização deste partido em 1941/1942.

Na PVDE, a partir de 1944, Gouveia vai-se especializando nas técnicas de trabalho do PCP, desmantela células, tipografias clandestinas, força confissões, começa a ser conhecido pelo desmantelamento de casas clandestinas e pela crueldade dos seus interrogatórios. Fernando Gouveia e a brigada de José Gonçalves detêm, espancam e em alguns casos matam. Salazar endurece o quadro legal que leva os militantes do PCP a ficarem tempo indeterminado presos e os tribunais plenários legitimam estas arbitrariedades das “medidas de segurança”. Com o fim da guerra, e com a esperança da intervenção das democracias em Portugal, cresce a agitação estudantil e social, o regime de Salazar responde com mais repressão. 1949, ano de eleições presidenciais, fica marcado por um número elevado de prisões, a historiadora procede ao estudo das delações, agentes duplos, PIDES infiltrados. Esta análise vai ao interior das relações dos funcionários do PCP e dos problemas suscitados pela clandestinidade, uma atmosfera de permanente desconfiança que levou à caça às bruxas e a reviravoltas que por vezes apanhavam os clandestinos desacautelados, como foi o caso da passagem do estalinismo ao kruschevismo, toda a Guerra Fria se repercutiu em dissensões, prisões, expulsões, endurecimento a pretexto dos “desvios”. A historiadora recolheu depoimentos sobre os métodos de Fernando Gouveia: uso da “estátua”, linguagem sedutora de reunião dos militantes, prometendo juntar as famílias, apelos à traição, interrogatórios ao pontapé e à bastonada, etc.

A partir de 1958, o furação Humberto Delgado cria uma nova onda de repressão, é o ano de todas as prisões que se prolongará por 1959. Gouveia é colocado no Gabinete Técnico da PIDE, a sua missão é a de tratar as informações que possam interessar rapidamente ao serviço de investigação. É um Estado dentro do Estado: Gouveia manuseia as cópias de todos os autos levantados aos arguidos, passa a ter o privilégio de possuir uma visão macroscópica da organização comunista. Década de 60 é igualmente de repressão feroz: teve lugar a prisão de altos quadros, ocorreu o assassinato de José Dias Coelho, generalizou-se a tortura às mulheres. Começara a guerra em Angola, houve greves de assalariados agrícolas no Ribatejo e no Alto Alentejo, começaram as movimentações estudantis, o regime reorganizou a PIDE, para que esta pudesse servir melhor em Portugal e nas colónias. Silva Pais responde directamente perante Salazar, Fernando Gouveia foi promovido a inspector, mantêm-se activo e contribui para a detenção de mais militantes, acompanha cuidadosamente a evolução das forças de oposição, caso da Frente da Acção Popular e o aparecimento de novas forças fruto do conflito sino-soviético.

Revelação importante do livro prende-se com as informações dadas por Gouveia e outros de que a PIDE/DGS foi instada a não investigar as movimentações dos militares em torno do 25 de Abril. Nas suas declarações à Comissão de Extinção da PIDE/DGS, Gouveia procurará semear confusão até ao fim, insinuando mesmo que a morte de Pedro Soares e Maria Luísa Costa Dias, em 10 de Maio de 1975, não fora fruto de um acidente, o casal “estaria ser imolado, provavelmente devido à má actuação de Pedro Soares na Argélia”.

O testemunho de Gouveia, o itinerário que teve na polícia política, o seu testemunho e até as memórias que publicou, têm efectivamente uma grande importância. É um olhar profundo e desapiedado sobre a máquina da repressão, ele foi um polícia de nível e coligiu um número fenomenal de informações sobre o PCP. O livro de Irene Pimentel exerce uma forte atracção, fazendo conhecer um percurso individual de um investigador implacável, pondo em paralelo a evolução institucional da resistência e da repressão a que foi sujeito o PCP e todo o seu aparelho na clandestinidade.

CHURCHILL, COMPASSIVO E INQUEBRANTÁVEL

Beja Santos

 

Martin Gilbert é considerado a maior autoridade mundial em Churchill. Em 2002, a pretexto do busto de Churchill oferecido ao presidente dos Estados Unidos, Gilbert fez uma conferência na Casa Branca sobre a personalidade do mais temido adversário de Hitler. A liderança de Churchill exigiu uma concentração e uma capacidade de deliberação ímpares e numa escala que não se voltou a verificar. Quando a ofensiva do senhor do III Reich levou à queda da França, foi em Churchill e no Reino Unido que o mundo livre depositou a última esperança. É essa análise admirável com base na conferência na Casa Branca podemos agora, e muito proveitosamente, ler sob a forma de livro (“Continuem a moer-lhes o juízo, A liderança de guerra de Churchill” por Martin Gilbert, Gradiva, 2007). Winston Churchill era um corredor de fundo: foi deputado quase 40 anos, durante 25 anos ocupou altos cargos ministeriais, teve tempo para adquirir experiência nas variadas esferas da política nacional e internacional. Antes de ser primeiro-ministro apoiou outros primeiros ministros graças às suas capacidades de negociação e persuasão em áreas tão diferentes como a marinha de guerra, a marinha mercante, a produção de munições, o conflito irlandês, a criação de uma pátria na Palestina para os judeus. Contrariando a tradição, ao tornar-se primeiro-ministro em Maio de 1940 criou o cargo de ministro da Defesa que o pôs em permanente diálogo com os três chefes do Estado-Maior. Criou estruturas de decisão rápida ao nível do planeamento militar, dos serviços secretos, do fabrico de armamento, das importações.

Era um verdadeiro civil que reflectia sobre a questão militar, como uma capacidade rara de trabalho e trabalhando intimamente com os seus colaboradores. 30 pessoas do seu gabinete permaneciam a seu lado, num sistema de rotatividade, sete dias por semana. Nenhum líder viajou tanto como ele durante a Segunda Guerra Mundial. Podia hesitar uma decisão mas logo que tomada dava-a como irrevogável. Para não esbanjar energias, fazia-se acompanhar permanentemente por dactilógrafas que anotavam o que quer que ele dissesse e quando dissesse, elas registavam até os seus murmúrios ininteligíveis e depois transcreviam-nos. Todas as suas instruções eram obrigatoriamente feitas por escrito ou confirmadas por escrito logo a seguir a ser proferidas. Trabalhava de manhã na cama cercado por colaboradores que iam abrindo as caixas seladas, donde saía toda a papelada que ele devia apreciar. A sua fenomenal capacidade de trabalho tinha limites e um deles era não ser acordado por qualquer notícia à noite, por muito má que fosse, a não a invasão da Grã-Bretanha. Não sendo colérico nem ríspido, mal sabia disfarçar a tensão embora lhe custasse guardar as emoções em público. Todavia irritava-se frequentemente e não iludia o gosto pelo conflito.

Nos tempos sombrios de 1940, expôs-se permanentemente na rua, dando confiança e pedindo sacrifícios. Recusou obstinadamente qualquer negociação com Hitler e quando a França caiu ele limitou-se a dizer que o Reino Unido ia continuar a lutar até à vitória.

Era um orador exímio, soube usar a rádio, a plateia da Câmara dos Comuns, os noticiários filmados, as aparições públicas. Nunca ninguém lhe conheceu o derrotismo e foi tremendamente exigente com os círculos aristocráticos e o funcionalismo público, exigindo-lhes atitudes exemplares à altura do sacrifício dos soldados que defendiam a pátria. Os seus colaboradores, viram-no sombrio nos momentos dramáticos das derrotas da Noruega, em Dunquerque, no Norte de África, quando os japoneses atacaram a Malásia, quando caiu Singapura. Nesses momentos, ele revigorava-se e o sue verbo inflamava os britânicos e todos aqueles que confiavam na resistência personificada por Churchill.

Exigiu a todos os seus colaboradores o maior sigilo sobre informações secretas, a começar pelo sistema Enigma em que assentava a luta contra Hitler. Pondo de lado as velhas querelas, foi intransigente no governo de unidade nacional, ignorou os interesses partidários e as questiúnculas com os seus adversários dentro do partido conservador.

Era um genuíno líder de guerra, que acreditava na sua estrela, confiando em si próprio e nunca iludindo em público as dificuldades. Ainda hoje arrepia o que ele disse a 13 de Maio de 1940, já como primeiro-ministro, na Câmara dos Comuns: “Gostaria de dizer a esta Câmara, tal como disse àqueles que se juntaram ao meu governo que não tenho nada a oferecer senão sangue, trabalho, suor e lágrimas. Temos pela frente muitos e longos meses de sofrimento. Perguntais, vós, qual é a nossa política? Responderei que é fazer a guerra, no mar, na terra e no ar, com todo o nosso poder e com todas as forças que Deus nos conceda; fazer a guerra contra uma tirania monstruosa, sem precedentes no catálogo dos crimes humanos. É essa a nossa política… Perguntais, vós, qual o nosso objectivo? A isso posso apenas responder com uma palavra: é a vitória. Vitória a todo o custo, vitória apesar de todo o terror, vitória por muito longo e difícil que o caminho possa ser, pois sem a vitória não haverá sobrevivência.”

Com a sua larga e vasta experiência, Churchill sabia que esta vitória era a liberdade nunca um benefício directo e expresso para a Grã-Bretanha, pois o império estava condenado. Ele dirá sempre em todas as circunstâncias que aquele esforço monumental contra os exércitos de Hitler eram acima de tudo para defender a civilização e a liberdade. Para encabeçar essa defesa, nunca escondeu que precisava de estreitar o relacionamento com os Estados Unidos, obrigando Washington a sair do isolacionismo. Severo com ele próprio, escrutinava rigorosamente todos os objectivos traçados para a vitória, procurava escolher os mais competentes para cada missão, rectificando ou sugerindo as soluções mais eficazes com a possível oportunidade.

A sua liderança acumulou um poder desmesurado, nenhum outro primeiro-ministro tinha tido ou voltou a ter tal capacidade de manobra. Como observa o seu biógrafo, ao submeter-se à grande coligação, teve o cuidado de não abusar do poder acumulado. Foi um negociador hábil, como revela a sua correspondência com Mussolini, Staline e sobretudo Roosevelt. Agiu de forma resoluta e nalguns casos foi implacável. Assim aconteceu quando os navios de guerra ingleses ao largo de Oran abriram fogo e mais de 1250 marinheiros franceses, ainda há poucas semanas aliados da Grã-Bretanha, foram mortos. Procurou evitar as baixas e reduzir o número dos mortos civis. Reflectindo sobre a primeira metade do século XX e sobre a destruição provocada pelos bombardeamentos aéreos em ambos os lados do conflito, Churchill comentou em 1953: “Tudo considerado, não trocava o nosso tempo, e todos os seus problemas por outro, mas devo deixar registado que lamento o dia em que a raça humana aprendeu a voar”.

Foi um líder da liberdade, da resistência, a imagem corajosa de quem fez a guerra sem ilusão da ausência de vantagens económicas e financeiras de qualquer tipo. Bonacheirão, com o seu terno charuto na boca e a fazer o sinal de vitória com os dedos, humanizou o combate em defesa da democracia. Modificou o conceito de conservador e de liderança responsável. Passou à história mundial e os líderes da actualidade têm muito a aprender com a sua vida e experiência política.

O BOM CONSUMIDOR E O MAU CIDADÃO

por Beja Santos

 

As contradições do nosso tempo Embrenhados no hiperconsumo e no hiperindividualismo, queremos o melhor para os outros desde que não se subtraia qualquer da regalias de que temos vindo a usufruir: queremos tudo e imediatamente; queremos os 4×4 e a protecção da camada de ozono; somos contra as deslocalizações mas queremos os preços mais baixos de tudo; somos defensores dos hipermercados e do comércio tradicional… A nossa moral não consegue conciliar os extremos, mas nós temos essa veleidade. Sim, é tal a nossa preocupação de ter acesso ao consumo infrene que nem nos questionamos sobre a má cidadania em que vivemos.

“Le bon consommateur et le mauvais citoyen” é a mais recente obra do conceituado sociólogo Robert Rochefort e merece ser analisada na perspectiva das contradições éticas do nosso modo de vida (Odile Jacob, 2007). O consumidor procura ser astucioso desvalorizando a sua cidadania. Vejamos como.

Em 30 anos, passámos brutalmente de uma sociedade de produção para uma sociedade de consumo, agora produz-se só a pensar no que se consome, o marketing triunfante é aquele que escuta o cliente e o satisfaz prontamente. No entanto, nós sabemos que existe o comércio justo, uma outra agricultura fora da industrialização, sabemos que o esbanjamento é um dano ambiental e que as lojas dos chineses são sinónimo da nossa perda de competitividade. É a moral do indivíduo que triunfa, ninguém se sente culpado pelos prazeres do consumo hedonista que estão a levar à fragmentação social. Consumimos em função do nosso eu e do nosso íntimo, e se o mundo está mercantilizado é porque as nossas vidas são uma sequência de operações mercantis. Parece que a cidadania tem que ficar exclusivamente não mãos dos políticos, deverão ser eles a resolver os nosso problemas de habitação, de emprego, espaços verdes, solidariedades. Somos bons cidadãos porque pautamos os nosso hábitos pelo pragmatismo e oportunismo. Por exemplo, ninguém se preocupa em considerar matérias de ensino obrigatórias o saber comprar, poupar, pedir crédito, saber ler um contrato de um telemóvel, como se o ensino fosse o território privilegiado do saber falar, escrever, contar e raciocinar. Ora ser cidadão é conhecer os compromissos da generosidade, isto enquanto o consumo é constituído pelas coisas se pagam e se comercializam. A cidadania exige comportamentos que ultrapassam a satisfação instantânea com a compra de bens e serviços. Na atmosfera de sedução em que vivemos mergulhados é natural a facilidade de consumir, tudo se comunica e se expõe para ter acesso pronto, e o crédito lubrifica os impulsos, mesmos os mais controlados. Consumir é viver centrado sobre si, o oposto da cidadania.

Uma breve história da sociedade de consumo

Nos primeiros 20 anos da sociedade de consumo passámos da penúria para a abundância. Primeiro chegou o conforto doméstico, as máquinas que simplificaram a vida, os produtos de higiene e de conservação doméstica, etc. A seguir chegou o imaginário e aconteceu a individualização do consumo. Agora queremos os preços mais baixos a qualquer momento, andamos ávidos por promoções, descontos, oportunidades, preços do último minuto. Tudo isto é possível graças às técnicas de comunicação e ao peso que a decisão do instante passou a ter nas nossas compras. Só que a satisfação das necessidades decorre de um novo princípio: a sua interpenetração. Outrora, as necessidades estavam claramente compartimentadas, os objectos eram vendidos em estabelecimentos especializados, toda esta segmentação facilitava a que o consumidor pudesse controlar as despesas do seu orçamento. Esta segmentação desapareceu: há livros nos CTT, há bordados nas lojas de jardinagem, as farmácias vendem alimentos dietéticos e os supermercados vendem complementos alimentares. Nascem novas formas de interpenetração entre o lazer, a comunicação e a saúde. Pode dizer-se sem qualquer margem para exagero que não existem mercados definitivamente saturados. Passámos de uma lógica compartimentada e fundada sobre as necessidades tradicionais para o credo da satisfação do desejo de cada um. Balançamos permanentemente entre a necessidade e o desejo, o ideal seria que os dois se equilibrassem. O consumidor está plenamente satisfeito quando um produto faz a síntese entre a sua funcionalidade e o prazer que advém do seu uso. Ora, hoje em dia é o princípio do prazer que prevalece em todas as motivações para comprar. Esta importância do prazer nunca aparece associada a qualquer frivolidade, é mesmo tida como o essencial da existência. O consumo aparece como um refúgio que contribui para ultrapassar todas as asperezas. Já não comemos para viver, comemos saúde, comida com virtudes preventivas, comemos para reparar os desgastes da existência e até para prevenir o envelhecimento.

Pode, pois, compreender-se a luta titânica que travam as marcas para garantirem a fidelização dos consumidores, num mundo onde os champôs se vendem em toda a parte, tal como os livros, a confeitaria ou até o material de iluminação. Essa luta passa pelas marcas desaparecerem nos produtos brancos, evidentemente com outros padrões de qualidade. Nas lojas Minipreço ou Lidl nós nunca questionamos quem fabricou e, como é evidente, muitos fabricantes de peso trabalham para marcas de distribuidores.

O excesso de propostas imateriais pode saturar o consumidor e levá-lo a preferir, indiferenciadamente, elementar ou o básico. Há domínios onde nos mantemos seduzidos pela inovação tecnológica (electrónica de grande consumo ou o automóvel), já vimos que na alimentação podemos acreditar nas promessas de saúde mas na generalidade dos casos andamos à procura de comida que nos dê prazer, desde que haja confiança. A crença nas marcas está profundamente abalada, o que obriga os fabricantes a defender a marca produto a produto e só em casos excepcionais a querer proteger a marca de fabricante como garantia de genuíno, confortável e eficaz (tem sido este o grande sucesso da marca Nivea). O marketing pretende evitar a relativização das diferenças de qualidade das diferentes gamas de produto, mesmo e sobretudo quando um produto tem uma tecnologia banalizada e copiada procura dar-se ao consumidor a ideia de um valor imaginário e até de um prestígio que na prática já não existe.

Dimensão distinta tem o comércio electrónico onde o móbil principal da compra é a rapidez e a garantia de qualidade/preço com base em informações previamente adquiridas.

Concluindo este ponto, dir-se-á que existem múltiplas tendências nas práticas comerciais, mas o valor da marca continua ancorado ao sentido da confiança. O que nos leva a interrogar se existe alguma compatibilidade entre ser consumidor e ser cidadão. Observe-se, logo à partida, que a ideia de cidadania é muito próxima do local onde vivemos, tem a ver com a lógica dos deveres de cidade. No consumo, a despeito do valor que conferimos aos nossos produtos tradicionais, sabemos que qualquer produto que existe nas nossas lojas decorre dos mercados globais.

A cidadania repousa no princípio de uma separação entre a vida pública e a vida privada, é este o fundamento da laicidade. Ser cidadão é observar normas convergentes para o desenvolvimento, para a liberdade e para a democracia. É com base na cidadania que respeitamos o código da estrada, não fumamos os espaços públicos, pagamos impostos, enfim estamos submetidos a direitos objectivos. O consumo é diferente, o que predomina são os direitos subjectivos, a liberdade de escolha, o consumidor não deseja interferências na composição do seu pequeno almoço. Cidadania é boa educação e solidariedade, o que tem haver com a higiene dos estabelecimentos, o recolher os detritos dos animais dos passeios ou promover a qualidade do serviço público. Consumir pode entrar em colisão com a cidadania, o consumo é imediato e a cidadania reflectida, pelo o que convirá perceber como é que um consumidor satisfeito pode praticar uma má cidadania. É o que veremos no próximo artigo.

Seniores e medicamentos: lutar por uma boa convivência

por Beja Santos

 

Particularidades do organismo do idoso
Com o envelhecimento, ocorrem alterações orgânicas e funcionais que são responsáveis por eventuais aumentos de sensibilidade e acumulação de substâncias incorporadas nos medicamentos. Tais aumentos de sensibilidade acarretam nos doentes seniores um acréscimo de efeitos adversos secundários ou do nível de toxicidade. Estes problemas podem ainda ser agravados nos quadros de doenças múltiplas (polipatologia), da toma de um número elevado de medicamentos (polimedicação), bem como de erros ou enganos (os seniores de idade avançada, regra geral, fazem mais confusões e têm menos concentração).
Neste grupo etário a acidez gástrica é menor, o que pode modificar a absorção de alguns medicamentos, tornando-a mais lenta. A diminuição dos movimentos intestinais (situação frequente no idoso), pode também contribuir para uma absorção mais lenta dos medicamentos. O sénior tem também baixo nível de proteínas no sangue, o que traz implicações na absorção dos medicamentos e que potenciam a sua toxicidade. A par disto, o sénior tem proporcionalmente maior quantidade de gordura em relação à massa muscular, o que pode condicionar a acumulação de medicamentes que se ligam mais à gordura, prolongando o seu efeito. À medida que a idade progride , os rins reduzem progressivamente a sua actividade. Como os medicamentos são eliminados pelos rins, a diminuição da função renal faz com que o medicamento seja acumulado, com probabilidade do aumento do seu efeito ou de maior toxicidade.

Cuidado na escolha dos medicamentos

Acresce dizer que cada indivíduo tem as suas características próprias e a deterioração orgânica e funcional não surge sempre ao mesmo tempo, diferindo, também na velocidade e órgãos em que se instala. Daí que pessoas com 70 anos ou mais possam ser orgânica e funcionalmente mais jovens do que outras de 50. As alterações que obrigam a cuidados especiais no uso do medicamento são, sobretudo, as associadas à função renal, ao sistema nervoso central bem como as respostas autónomas a determinadas situações. Nada como exemplificar. A nível das alterações renais, a sua importância é mais evidente quando o doente toma medicamentos que são eliminados pelos rins, havendo uma diminuição desta função com acumulação do medicamento e possível toxicidade.

No caso do sistema nervoso central, pode haver alterações no equilíbrio, maior sensibilidade aos medicamentos tomados para os nervos, e também confusão e esquecimento.

No caso de uma baixa súbita da pressão arterial, a recuperação dos idosos é sempre mais lenta e as consequências mais gravosas que num indivíduo na força da vida (o que obriga a uma selecção criteriosa de certos medicamentos, com destaque para os anti-hipertensores).

Existem medicamentos que são tidos como contra-indicados no idoso, havendo outros que podem ser administrados sob vigilância mais apertada e outros, ainda, que, quando administrados, obrigam à redução da dose. Dentro dos exemplos mais significativos temos os medicamentos para induzir o sono, os anti-inflamatórios, e os cuidados a ter quando se sofre de hipertrofia da próstata.

No caso dos indutores de sono, quando o sénior toma a mesma dose que a destinada a indivíduos mais jovens, a sonolência é mais marcada e duradoura. Desaconselha-se o uso prolongado destes medicamentos e recomenda-se a utilização de doses mais fracas.

As queixas ósseas, frequentes neste grupo de doentes, levam à toma regular de anti-inflamatórios, medicamentos agressivos para o estômago e por vezes responsáveis por gastrites e hemorragias que não são visíveis, já que as quantidades de sangue são canalizadas directamente para as fezes. Estas hemorragias são responsáveis por anemias crónicas. Podem reduzir-se estes efeitos tomando o medicamento depois da refeição, com um bom copo de água. Por vezes, os doentes receiam o efeito destes medicamentos sobre o estômago, tomam doses insuficientes para conseguir o alívio, o que os obriga a tomar dois ou mais anti-inflamatórios. Esta atitude é totalmente desaconselhada, pelo que se recomenda que só se tome um anti-inflamatório nas doses efectivas e aconselhadas à idade.

Nos indivíduos de sexo masculino, quem sofre de hipertrofia da próstata deve ter uma atenção especial aos medicamentos que toma, dado que alguns estão contra-indicados nestes casos, porque agravam a hipertrofia e dificultam o urinar. São exemplos alguns calmantes, os destinados às cólicas e aos estados gripais.

A lição a tirar é de que o tratamento dos pequenos mal-estares só seja efectuado mediante vigilância do médico ou indicação farmacêutica e que se sigam as instruções destes profissionais de saúde. O sénior é um doente como outro qualquer que necessita apenas de alguns ajustamentos na prescrição e uma escolha mais selectiva de medicamentos e respectivas doses.

ELA ERA O ROSTO FEMININO DA GUERRA COLONIAL

Beja Santos

 

Cecília Supico Pinto, a Cilinha (diminutivo pelo qual sempre fez questão de ser chamada) era a personificação do Movimento Nacional Feminino (MNF) que ela criou em 1961. Tinha então 39 anos, era uma mulher no topo da hierarquia social salazarista e o eclodir da guerra em Angola levou-a a fundar uma “associação sem carácter político e independente do Estado” disposta em congregar “todas as mulher portuguesas interessadas em prestar auxílio moral e material aos que lutam pela integridade do território pátrio”. Cilinha tornou-se numa líder carismática, uma energia trasbordante que circulava regularmente entre Portugal e África, Espontânea, conhecida pela sua frontalidade, não era equívoco para ninguém a sua desvelada afeição pelos território ultramarinos, tal o seu ajustamento aos princípios morais e ideológicos do Estado Novo, sempre legitimou a política colonial de Salazar. Cilinha, sempre apelou para que a opinião pública fosse generosa para aqueles que combatiam em África. “Cecília Supico Pinto, o rosto do Movimento Nacional Feminino” por Silvia Espírito Santo (A Esfera dos Livros, 2008) é a biografia dessa mulher que vestiu camuflado e percorreu as frentes de batalha, chegando a ser ferida. Tudo em nome de uma missão. Como ela confessa neste livro: “Dei tudo o que tinha. O Movimento foi a minha vida (…) A única coisa que nunca disseram de mim era que eu não trabalhava e que não estava presente em permanência, isso estive toda a minha vida. O chefe é o primeiro servidor de um ideal, o meu ideal era aquele e eu tinha que servir muito mais do que todos os outros”.

Casou com o Ministro da Economia, Luís Supico Pinto, no fim da guerra, e de Cecília Maria de Castro Pereira de Carvalho, nome de estirpe aristocrática tornou-se em Cecília Supico Pinto. Aderiu muito cedo ao regime autoritário de Salazar, que admirava profundamente. Cilinha fez o percurso “natural a todas as senhoras de bem”: Cascais, Ericeira, Sintra, teve preceptora, foi educada nos princípios da honestidade, no rigor da verdade e da contenção das despesas, conheceu os Palmelas, os Avilezes, os Galveias e os Pinto Basto, andou a cavalo, cantou o fado, conduzia a alta velocidade, praticava caridade. Pelo casamento consolidou a aproximação ao topo da hierarquia do regime. Cilinha era extrovertida e conquistou imediatamente as graças de Salazar. Consta que Sophia de Mello Breyner, no livro “Contos Exemplares”, descreve Cilinha de quem, aliás, era amiga: “(…) Mónica está nas melhores relações com o Príncipe deste Mundo. Ela é sua partidária fiel, cantora das suas virtudes, admiradora dos seus silêncios e dos seus discursos. Admiradora da sua obra, que está ao serviço dela, admiradora do seu espírito que ela serve”. Verdade ou mentira, Cilinha transformou-se numa mulher importante do regime, aparecendo várias vezes como a primeira dama de Portugal, charmante e risonha.

Luís Supico Pinto deixa o Ministério da Economia em 1947, passa a fazer parte da Sociedade Agrícola Algodoeira de Moçambique, mesmo permanecendo em Lisboa. Mas depois começaram as viagens a África e quando chegam os primeiros sinais da luta armada, Cilinha, reage, apronta-se a defender o Ultramar, aparece logo na manifestação de desagravo depois do assalto ao Santa Maria. Fruto das circunstâncias e da sua personalidade, passou imediatamente a ser o rosto dessas mulheres patriotas que distribuíam kits de cigarros e aerogramas aos militares, que editavam discos, que enviavam publicações aos militares nas frentes de combate, estimulando as madrinhas de guerra e os espectáculos com os ídolos da canção. A operação saudade baseava-se na venda de cinco milhões de senhas para dar oportunidade aos militares em combate de viajarem até à Metrópole: “Um militar por dia, trezentos e sessenta e cinco por ano, uma campanha sem precedentes”.

Conhece-se a história de um MNF através das suas publicações, caso das revistas Presença e Guerrilha, mas também os programas de rádio, as gravações com música e mensagens de vários artistas. Foi louvada e condecorada pelo regime, recebeu medalhas de ouro e vários títulos honoríficos. Como se disse, percorreu Angola, Guiné e Moçambique por diversas vezes. Cilinha vai vendo com os seus próprios olhos o desmoronamento dos valores e garante ter alertado a hierarquia do regime para a degradação político-militar.

Não esconde durante as entrevistas com a autora que teve um papel privilegiado entre as mulheres portuguesas que abraçaram o salazarismo. Aceitou Marcello Caetano mas não esconde reticências perante a evolução política. Não teve ilusões de que o 25 de Abri representava o fim do Império, tentou ainda pôr o movimento ao serviço dos feridos e doentes, em 22 de Julho de 1974, o MNF era instinto e o seu património entregue à Liga dos Combatentes. Seguiu-se um período de dificuldades, gente a virar-lhe a cara na rua, ela diz nunca ter abdicado das suas convicções e do valor da sua consciência.

Temos aqui uma oportunidade para conhecer o MNF e a vivacidade da intervenção da sua protagonista. Não se pode estudar a Guerra Colonial sem conhecer esta organização e a energia da sua líder carismática, hoje no anonimato.

ACERCA DO ESPLENDOR E DAS DEBILIDADES

DAS TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO

Beja Santos

 

Os imprevistos da arma suave Todas as livrarias têm nas suas estantes livros injustamente esquecidos. Vivemos sob o primado do best seller, do sucesso escandaloso e do badalado pelas modas. O que está fora deste circuito, praticamente não existe. Há cerca de dez anos surgiu entre nós um livro importante que passou despercebido, e hoje está certamente no olvido. Trata-se de “A Arma Suave” (história natural e futuro da revolução da informação, por Paul Levinson, Editorial Bizâncio, 1998).

Esta importante obra, contribui ainda hoje para nos fazer perceber que qualquer meio de comunicação tem as suas vulnerabilidades, podendo superar os seus concorrentes numa área mas falhar perante o mesmo conjunto ou um conjunto diferente de concorrentes, noutra área. Vamos aos argumentos.

A rádio foi, como se sabe, o meio de comunicação mais influente até ao advento da televisão; ocupava o lugar central na sala de estar ou de jantar, e não terá sido por pura coincidência que os quatro líderes indiscutivelmente mais poderosos da primeira metade do séc. XX (Churchill, Roosevelt, Hitler e Estaline) foram verdadeiros talentos radiofónicos. Quando tudo parecia prever o seu enterro sem glória, a rádio soube capitalizar a seu favor três elementos de inegável importância: criou consonância da sua comunicação sem imagem com a necessidade humana de, por vezes, ouvir coisas diferentes; passou, eclecticamente, a corresponder às necessidades do grande público, difundindo música temática ou os últimos êxitos discográficos ou, ainda, contribuindo para o cultivo do gosto; deixou de estar num local fixo, deslocando-se maleavelmente para os automóveis, cozinhas, casas de banho, campo e praia. Dito de outro modo, a rádio descobriu aplicações que não estavam inicialmente previstas; é polivalente, prestando relevantes serviços no seu nicho de mercado.

O mesmo se dirá do gravador de vídeo (hoje deu lugar ao DVD), que nos subtraiu à comunicação instantânea da televisão, equilibrando o imediatismo tecnológico, até então descontrolado, da programação diária. Inclusivamente, a indústria cinematográfica recebeu um novo impulso, visto que os filmes passaram a ser vistos em casa e, por outro lado, os estudiosos das audiências continuam a não são capazes de dizer com rigor aos anunciantes se o público que visiona as emissões gravadas passa, ou não, por cima dos anúncios. Em suma, o gravador de vídeo introduziu suavidade num determinismo tecnológico julgado, até então, intocável.

A digitalização que mudou o mundo

Mais tarde, a história da comunicação mudou com a entrada em cena do processador de texto. Este, torna a escrita mais fácil, acelera o processo de exteriorização do texto (isto é, reduz a resistência que, inevitavelmente, se intromete na conversão do que está dentro das nossas cabeças naquilo que queremos que esteja cá fora). É, também, mais eficiente, pois as palavras inseridas num computador não só aparecem instantaneamente no ecrã como existem no computador, numa forma que se materializa numa fracção de segundo.

Como é evidente, há muitas críticas a estes apregoados benefícios, recorrendo-se a argumentos em defesa da contemplação prévia como essencial para a boa escrita, sendo que a velocidade e o conforto do processamento de texto funciona como incentivo para o abandono total ou parcial dessa mesma contemplação. Paul Levinson escreve, textualmente: “As palavras nos ecrãs do computador são um novo tipo de meio. Tal como a adição de corante azul à água resulta num novo tipo de água azul, as palavras num ecrã não são apenas um ecrã e palavras mas sim novos tipos de palavras. As palavras parecem-se com as palavras dos livros, mas podem ir vertiginosamente a sítios e com mais facilidade do que as palavras presas a páginas. O ecrã parece uma televisão e partilha a sua infinita refrescabilidade, mas normalmente exibe palavras e não imagens, e, mais importante ainda, palavras que podem ser criadas pelos seus espectadores.”

A Web veio a revelar-se como o mais espantoso meio de comunicação: é antítese de um recurso escasso (milhões de pessoas não só a consultam diariamente, como lhe dão o seu contributo com novos conteúdos e ligações); o participante online está a tomar uma decisão muito mais consciente quando se liga à Web do que o ouvinte de rádio quando liga este aparelho; se bem que a Web tenha cada vez mais imagens e sons, o seu filão fundamental continua a ser a palavra escrita.

O futuro do ecrã, o futuro do papel

A nossa cultura tanto produziu coisas para o ecrã como foi substancialmente moldada por elas. Houve quem falasse em ditadura da televisão, fenómeno altamente improvável, isto, sem prejuízo de existirem programas estupidificantes com larga audiência. Igualmente, um ecrã de computador não é um televisor: trata-se de livros cujos leitores poderiam conversar com os seus autores, se ambos estivessem numa comunidade online. É evidente que há semelhanças entre um ecrã de computador e um televisor. Mas as diferenças são impressionantes: na (des)programação (há uma estrutura imposta na televisão, ao contrário do que se passa na Web); na diferenciação (cada estação de televisão emite a mesma programação para toda a gente, ao passo que cada computador pessoal tem “vida própria”), etc.

Noutra abordagem, o gravador de vídeo revolucionou a televisão, permitindo que os espectadores especificassem exactamente o momento em que veriam os seus programas. Porém, o gravador só pode registar o que consta do alinhamento da televisão. O digital subverteu tudo, introduzindo uma noção de “media self service”, totalmente inconcebível há 10 anos atrás.

Finalmente, um outro imprevisto: o papel, seja fax, livro ou jornal. Quando se dizia que o hipermercado iria engolir toda a actividade comercial, constata-se hoje precisamente o contrário, havendo especialização de todas as superfícies comerciais e lugar para todos. O mesmo se passa com o papel, em que o livro brochado tem o seu nicho definido como meio de leitura cómoda e o jornal acaba por contribuir para uma reflexão mais calma sobre os acontecimentos.

Mensagem central da “Arma Suave”: uma tecnologia de informação sobrevive na exacta medida em que sabe satisfazer necessidades humanas melhor que as suas concorrentes.

Paul Levinson foi profético: eu escrevo neste jornal à procura de leitores que prezam a reflexão, uso o digital, estou a ouvir rádio, reli um livro que fui desencantar ao anonimato, multiplico-me nos media, estou comutado entre a galáxia de Guttenberg e a Net. Descubro com paixão que continua a ser muito belo ler e escrever, e ter leitores ávidos de comunicação, quer seja no jornal impresso ou no digital.

A MODA DAS BIOGRAFIAS DE SALAZAR

Beja Santos

 

Há sensivelmente um ano, Salazar triunfou na RTP, foi exibido como o Grande Português. Tal circunstância levou a que tivessem recomeçado os debates (sobretudo emocionais, pois claro) relativos à sua importância no nosso século XX: se era honesto ou manhoso; nacionalista ou fascista; amigo do bem comum ou corruptor, favorável ao obscurantismo ou adepto do desenvolvimento, visionário ou ultraconservador. É este agora o saldo de um concurso mediático, mesmo que confuso nas suas intenções e problemático do ponto de vista cultural: à volta do inquérito televisivo foram possíveis regressar ódios e hossanas, emitiram-se os mais desencontrados juízos sobre um político que, pela força das coisas, tinha marcado a vida política, social, económica e cultural por mais de quarenta anos, com obra feita e decisões políticas necessariamente discutíveis. Fernando Dacosta elaborara, muito antes desta euforia sobre o salazarismo e Salazar, um relato centrado na vida privada do político. Revelou-se um sucesso, de tal modo que o autor de quando em vez o reactualiza. Seguram-se os livros de Jaime Nogueira Pinto, pedante e desnecessário, seguiram-se os relatos da protegida de Salazar, a Micas, e a historiadora Irene Pimentel encontrou ferro quente para um elevado acolhimento dos seus estudos. Até uma jornalista andou a vender “os amores” de Salazar como se houvesse algum escândalo esquecido ou amores interditos Como era de esperar, depois de consagrado como o Grande Português, Salazar tentava os autores a falar dele. O que é muitíssimo difícil, diga-se em abono da verdade: os testemunhos sectários funcionam como um biombo, Salazar escapa-se-nos na vertigem das laudes e acusações; se é inquestionável que algumas investigações levaram a bom porto o conhecimento de uma dada realidade (caso do ouro nazi, o relacionamento de Salazar com os monárquicos, um melhor conhecimento de alguns dos colaboradores do seu regime como Pinto Barbosa ou Santos Costa) muito falta pesquisar, e desde o início da Ditadura Militar até ao isolamento a que ele votou o regime, depois das eleições de 1958 e os anos horríveis de 1961 em diante. Enfim, conhecem-se os seus discursos, a sua legislação, muitos testemunhos de apoiantes e adversários, mas é prematuro apreender Salazar numa grande panorâmica, removendo os tons turvos da falta de documentação e da distância que leva a perceber a grandeza ou a pequenez definitivas do dirigente político.

“Salazar, A Cadeira do Poder”, por Manuel Poirier Braz, é uma tentiva de síntese bibliográfica, captando a juventude, a formação académica e ideológica, o percurso de Ministro das Finanças a Primeiro Ministro, a construção do Estado Novo, a erosão da imagem do regime, a guerra colonial e o seu fim político (Editorial Presença, 2008). Trata-se de uma obra de divulgação bem intencionada, mas não passa disso mesmo. O autor documentou-se pela rama e resumiu considerações já publicadas em muitíssimas obras. Os dados são seguros, na generalidade dos casos, a análise de organização do poder é que é tão superficial que não é da leitura deste ensaio de divulgação que se fica a entender quem o apoiou durante cerca de quarenta anos.

Há que reconhecer o papel das obras de divulgação. Só que o autor trabalhou os seus próprios “cavalos de batalha” que são muitíssimos discutíveis: Fátima renovou a imagem da igreja Católica mas é muito discutível que tenha constituído um pilar moral e uma agência de propaganda para o regime. Salazar era intrinsecamente religioso mas uma das marcas do seu poder foi distanciar-se dos outros poderes, embora manobrando-os e utilizando-os, sempre que necessário para a conservação do seu regime. Porque Salazar construiu o seu próprio regime, foi o princípio e o fim do seu próprio regime, não havia adaptações possíveis como no franquismo.

Há que reconhecer que Poirier Braz identifica o essencial dos instrumentos do Estado mas é totalmente omisso quanto à preparação das alianças de todas as forças conservadoras que levaram ao sucesso das suas políticas até ao fim da segunda guerra mundial. Será seguramente nesse tecido ideológico urdido de uma forma imaginativa e enérgica que encontramos a chave do êxito do salazarismo como doutrina que restituiu dignidade à Nação.

Dos anos 50 para os anos 60, Salazar teve sistema financeiro e sossego para criar um impulso desenvolvimentista que não se voltou a repetir. Ia entregando o regime á solidão, como abona a expulsão do escol universitário, em 1947. Cioso da sua obra, não se apercebeu da vaga de fundo inerente ao apoio dado à candidatura de Humberto Delgado. Como perdeu fôlego com a descolonização à escala mundial, que ele considerou um fenómeno espúrio, mais uma etapa da Guerra Fria. O capítulo sobre o desenvolvimento económico é pobre, imperfeito e injusto. Salazar não acreditava no mercado, nem na concorrência nem na livre iniciativa dos capitalistas portugueses. Não se pode analisar a obra de um governante lendo o que nos apetece, correndo o risco de não encontrar uma chave explicativa para a década de ouro do desenvolvimento português, que se extingue quando Salazar cai da cadeira.

Uma biografia não é também um catálogo de faits divers, por exemplo introduzir uma descrição sobre um dos médicos que operou Salazar só porque o dito era oposicionista, é uma nota surpreendente mas redondamente inútil. Como inútil a exibição da carta que Marcello Rebelo de Sousa escreveu a Salazar quando era criança. Introduzir um capítulo separado sobre as galantarias de Salazar é lamentável, quando agora se sabe que o próprio não dava nenhuma importância às paixões que suscitava, nunca se comprovou qualquer nexo entre afeições episódicas ou epidémicas e algum impacto na decisão política. Convirá dizer que o autor privilegiou a isenção em todo o seu relato, a despeito de em certas circunstâncias apoiar comportamentos de opositores a Salazar, caso do Bispo do Porto.

Temos portanto a primeira biografia singela daquele que foi indiscutivelmente o político que mais tempo governou e que indelevelmente marcou a história e a sociedade portuguesas. Correndo todos os riscos inultrapassáveis pela falta de distância, o autor afoitou-se e temos que lhe reconhecer que a empreitada tem os seus méritos. É bem possível que venham a seguir os historiadores e procedam à síntese que é também urgente oferecer às novas gerações.

ROSE MADDER OU OS HORRORES DA VIOLÊNCIA DOMÉSTICA

Beja Santos

 

Rose Daniels vive há catorze anos submetida à mais truculenta violência doméstica que imaginar se pode: espancada, pontapeada, vergastada, vigiada ao milímetro por um marido psicopata, Norman, detective de profissão. Para quem quiser saber o que é violência doméstica, estão hoje repertoriados inúmeros relatos, existem organizações como a APAV, estão perfeitamente identificadas as manifestações de violência doméstica, desde a sexual à económica. “O Retrato de Rose Madder”, de Stephen King (Bertrand Editora, 2008), é um prodigioso romance sobre um homem de mente doentia que sujeita a mulher à degradação máxima, esta já não sabe reagir ao crime, vive permanentemente condicionada pelas imprevisíveis flutuações de humor de um carrasco que estabelece ementas, horários de limpeza, saídas para as compras, vestuário, a natureza das companhias, o uso do dinheiro.

Um dia, imprevistamente vem a revolta, o sentido da libertação, Rose Daniels sai de casa com um cartão multibanco, faz um pequeno levantamento, apanha um autocarro e desaparece num povoado a cerca de mil quilómetros de distância, julga não ter deixado rasto. Ela foge mas uma existência vivida num permanente terror nunca a abandona: “Catorze anos disto. Cento e oitenta e oito meses disto, a começar quando ele a agarrou pelos cabelos e a mordeu no ombro por ela ter batido com a porta na noite de núpcias. Um aborto espontâneo. Um pulmão arranhado. A coisa horrorosa que ele fizera com a raqueta de ténis. As velhas marcas, em partes do seu corpo que as roupas tapavam. Marcas de mordeduras, na sua maioria. Norman adorava morder”. Rose chega a uma nova cidade e acaba a ser acolhida numa cada para mulheres maltratadas, um sítio que se chama Filhas e Irmãs. É aí que ela recomeça a sua vida à procura da dignidade perdida, da auto-estima, mas sempre com o fantasma de Norman Daniels a persegui-la.

O manejo psicológico de Stephen King é irrepreensível: começamos a perceber a decomposição e o exacerbamento patológico de Norman, ele anda à procura de uma pista, depois da polícia capturar um ladrão que foi encontrado com o seu cartão multibanco, Norman chega á estação de autocarros, idealiza itinerários possíveis a partir dos horários dos autocarros, a caçada vai começar. Enquanto tudo isto se passa, Rose reinsere-se, tem trabalho, vida de relação, deambula livre para gostar do mundo. É nisto que entra numa casa de penhores e compra um quadro, um óleo original, talvez sem qualidade artística, uma mulher de costas passeia-se na paisagem, ao fundo as ruínas de um templo. Rose sente-se hipnotizada pela figura central do quadro, a tal mulher que apenas se lhe viam as costas: “O cabelo loiro caía-lhe nas costas numa trança. A cingir-lhe um dos belos braços erguidos - o direito - tinha uma larga pulseira de ouro. A mão esquerda estava levantada e, embora não se pudesse ver ao certo, parecia estar com ela a proteger os olhos. A cor do traje era vermelho-arroxeado e vibrante”. Rose descobre igualmente amar um homem, tudo parece sorrir-lhe nesse tempo em que ela descobre a alegria de viver, inclusivamente começa a gravar folhetins na rádio, o que lhe dá imenso prazer.

Falando de Stephen King, há quem diga que ele é um mestre do terror e do horror. Não penso assim, King lança os seus personagens em situações de grande tensão, põe-nas à prova, através de exercícios ou provas duríssimas, são ritos de iniciação que temperam o carácter desses lutadores. É o que se vai passar com Rose Daniels e o retrato de Rose Madder, o quadro que ela adquiriu.

Iniciada a perseguição, Norman entra numa escalada de loucura, é um autentico matador que despedaça as suas vítimas, morde, esquarteja, é um troglodita à solta. Encurtando razões, quando consegue chegar junto de Rose para a liquidar, começa uma correria dentro do quadro de Rose Madder, que, entretanto, já dera sinais de alteração, como se es tivesse a advertir Rose Daniels para uma situação extraordinária em preparação. O psicopata persegue uma mulher dentro do labirinto e acabará devorado, como se a moral da história fosse a do ensinamento a todos aqueles que exercem a violência doméstica de que há sempre um castigo à sua espera.

A violência doméstica não é hoje o que era. É evidente que a mulher é a principal vítima, um marido dominador, macho e boçal considera-se proprietário e utilizador do corpo e alma da sua mulher. Alcoólico, desempregado, frustrado, insociável, bate na mulher e nos filhos, sente-se autorizado a recomeçar este ciclo infernal todos os dias. Metaforicamente, este quadro de Rose Madder é um recurso à ficção fantástica que parece querer dizer que agora já não é assim, a vítima deve queixar-se e repudiar o algoz, vivemos sob o império dos direitos humanos, a vítima deve ser apoiada e fugir à convivência com o carrasco, se necessário abandonar o lar, recomeçar como Rose Daniels.

Em Portugal morrem mensalmente cinco mulheres em consequência directa ou indirecta de violência doméstica. Rose Daniels é um símbolo que o mundo mudou nos direitos humanos. Stephen King é brilhante na sua metáfora, temos de ser nós a fazer o quadro que ponha termo a uma das mais escondidas barbáries dos nossos dias.

ANDANÇAS COM HERÓDOTO

Por Beja Santos

 

Poderá um historiador que viveu no século V antes de Cristo ter alguma utilidade para compreendermos o nosso tempo? Ryszard Kapuscinski, um dos mais prestigiados jornalistas do século XX, escreveu uma obra notável, literariamente aliciante, para nos dizer que sim. Heródoto, historiador, geógrafo e viajante, autor de “Histórias”, narração pormenorizada das Guerras Médicas (invasões dos Persas, o maior império do seu tempo, que pretendiam conquistar Atenas e Esparta, bem como toda a Hélade), ainda hoje considerado o livro matricial para o aparecimento das ciências históricas, apaixonou Ryszard Kapuscinski desde o início da sua carreira, levando-o a escrever o primoroso “Andanças com Heródoto” (por Ryszard Kapuscinski, Campo das Letras, 2007). Aonde começou essa paixão? Os nove livros que compõem “Histórias” estão cheios de segundos sentidos e Kapuscinski viveu intensamente na Polónia uma época de segundos sentidos, no estalinismo e no “degelo” subsequente: basta pensar na referência aos tiranos sanguinários, às demências dos homens poderosíssimos como Cambises, ao poder sem restrições em que o chefe supremo teme tudo à sua volta e líquida potenciais concorrentes. Kapuscinski começa a sua carreira de jornalista internacional e vai à Índia com Heródoto debaixo do braço. Pouco se sabe sobre este historiador que viveu há mais de 2500 anos e de quem nem podemos imaginar o aspecto físico. A Índia é para Kapuscinski um choque de civilizações, apetece reler Heródoto que muito provavelmente não chegou à Índia mas que descreveu minuciosamente as vinte satrapias (províncias) do colossal império Persa. Heródoto fala dos Indos e da sua diversidade. Heródoto foi uma excelente referência para esse seu primeiro contacto com o desconhecido, com o extraordinário e o fascinante. Heródoto dá lições de grande humildade, confronta-nos com a ignorância e com a falta de leituras. Kapuscinski escreve acerca de Heródoto: “A maneira como escrevia faz-nos pensar em alguém agradável, curioso com o mundo, alguém que faz sempre muitas perguntas e está disposto a andar milhares de quilómetros para encontrar uma resposta”. Sempre intrigado quanto à ausência de informações sobre Heródoto, Kapuscinski reflecte sobre o século V e a chegada do historiador a Atenas, então a cidade mais importante do globo. Só que Heródoto não permanece muito tempo em Atenas, vai viajar e fixa mais tarde residência numa colónia grega no sul de Itália. É aí que ele irá escrever, ou talvez ditar, as histórias de Creso, da Babilónia, de Dario e dos Citas, dos Persas, de Termópilas, de Salamina e tantos outros episódios que criaram em nós o sentido do rigor e da objectividade na observação dos acontecimentos e situações. Kapuscinski vai depois para a China, estuda o pensamento de Mao, visita a Grande Muralha, mas não percebe a língua nem o pensamento chinês, até aí Heródoto foi uma boa referência, ele tudo perguntava, tudo queria saber, achava insuficiente o “ouvir dizer”. Mesmo com o todo o seu legado à humanidade, observa Kapuscinski, o mundo de Heródoto é tremendamente limitado: a terra é representada como uma placa circular rodeada pelas águas do grande rio Okeanós, o Mar Egeu era o grande centro daquele mundo. Heródoto nunca tinha ouvido falar da China ou do Japão. Viveu na fronteira entre duas épocas, entre a transmissão oral e a história escrita. Heródoto viaja, recolhe material, faz palestras, procura explicações. As suas leis enunciam-se com facilidade: a ambição desmedida contribui para cometer actos injustos; é a injustiça que desenvolve o mecanismo da vingança; a felicidade humana não é estável nem definitiva. A tal propósito, Heródoto fala do rei Creso, que tem uma ambição desmedida e que tudo vai perder a favor do rei Ciro. Toda a história contada por Heródoto fala da extrema vontade do poder desmesurado e da resposta dos povos que não se deixam conquistar. O mundo de Heródoto é um mundo de deuses, de oráculos e de profecias. Mas Heródoto não acredita em tudo, por isso viaja, faz perguntas e depois regista as suas impressões. Depois de viajar pelo Egipto, Heródoto não tem dúvidas, os gregos herdaram os seus deuses dos egípcios, o que vai levantar uma grande polémica já que os gregos acreditavam na originalidade das suas divindades.

O que torna “Andanças com Heródoto” uma obra-prima absoluta é este recurso a “Histórias” a propósito de uma guerra civil em África onde percebemos a fragilidade da segurança quando abandonamos os muros de uma cidade e nos vamos expor a todos os perigos. Kapuscinski, a propósito de uma viagem a Cartum, fala de tempestades de areia que mudam constantemente a configuração da paisagem e confundem pontos de referência. Também Heródoto, na sua viagem ao Egipto, sabendo que tem deserto ao seu redor, não se afasta muito do rio e caminha sempre perto do Nilo.

Quando Heródoto fala de Dario, não parece que nos está a mandar recados sobre a ambição ilimitada, alertando-nos para o peso das humilhações, a fatuidade da decisão que não toma em conta os meios? Dario não quer saber quais as virtualidades dos Citas e vê o seu exército esmagado. Demorámos várias civilizações a descobrir que o poder absoluto corrompe e que são, na maior parte das vezes, os bajuladores e os sicários que impedem a análise correcta das dificuldades e oportunidades que se põem a todos.

Dir-se-á que a história de Heródoto era moralizadora e sempre favorável aos gregos. A primeira resposta que Heródoto nos dá é que devemos saber perguntar e escutar, saber vencer as distâncias, manter a curiosidade, duvidar do que nunca se viu, das amazonas, dos gigantes, das quimeras, e ter humildade em dizer coisas como “ninguém sabe ao certo” ou “não se conhece o nome”. Com Heródoto passou a saber-se que há feitos dos homens que não se desvanecem com o tempo e que essa narrativa é um equilíbrio instável entre a história objectiva e a visão subjectiva.

A partir de Heródoto a história é sustentada por alguém que acredita na realidade do seu relato. Como, aliás, viveu Kapuscinski o seu jornalismo, como correspondente nas setes partidas do mundo, tendo presenciado vinte e sete revoluções, vivendo doze frentes de guerra e até tendo sido quatro vezes condenado à morte por fuzilamento. Inquirir no mundo da comunicação deve dar a nós próprios e aos outros uma explicação do que se vê e sente, é não ter medo de falar das hesitações de Xerxes, dos crimes e castigos, das maldades e vinganças, de que vivemos num mundo diverso e que é bom termos este desejo de partilharmos com os outros o máximo daquilo que aprendemos e vivemos.

Hoje continua a ser muito difícil compreender o curso da História tal como no tempo de Heródoto. O que torna estas andanças de Kapuscinski um roteiro de grande prazer literário e uma viagem majestosa no conhecimento que devemos ter dos outros.

OS FUTURÍVEIS SEGUNDO JACQUES ATTALI

Beja Santos

 

Hiperimpério, hiperdemocracia Não há qualquer exagero em dizer que Jacques Attali é um intelectual que em nenhuma circunstância pode ser ignorado. Conselheiro de Estado de Mitterrand durante 10 anos, fundador do Eureka (programa europeu dedicado às novas tecnologias, responsável pela criação, entre outros, do MP3), da PlaNet France (associação de microcrédito que pretende combater a pobreza extrema), nomeado por Sarskozy para presidir a uma comissão que estudou os obstáculos ao crescimento em França, é detentor de uma obra vastíssima, que vai do ensaio ao romance.

“Breve História do Futuro, a incrível história dos próximos cinquenta anos”, é um ensaio de leitura obrigatória (por Jacques Attali, Publicações Dom Quixote, 2007). Qual o seu ponto de partida para esta aventura futurível? As forças do mercado assumiram a liderança do planeta, o dinheiro parece varrer tudo quanto encontra à frente, pode mesmo ameaçar os Estados, tornar-se a lei única do mundo. Se assim acontecer, o mercado dará origem ao hiperimpério, criador de fortuna e miséria extremas, a natureza será hipotecada, tudo será privatizado. No hiperimpério cair-se-á numa sucessão de barbáries regressivas, num conflito entre Estados. Attali chama a esta guerra hiperconflito. Se a globalização poder ser contida e reorientada, se o mercado poder ser circunscrito sem ser abolido, então surgirá um novo horizonte de liberdade, dignidade e superação e respeito pelo o outro: a hiperdemocracia, que conduzirá à formação de um governo mundial democrático, capaz de acolher e dinamizar as fantásticas potencialidades das tecnologias futuras. Attali escreve: “Acredito que possa triunfar a hiperdemocracia, forma superior de organização da humanidade, expressão última do motor da história: a liberdade”.

Em que mundo estamos a viver e para onde vamos? Primeiro, a explosão demográfica, admite-se que a Terra será habitada em 2050 por 9,5 mil milhões de seres humanos, a esperança de vida poderá rondar os cem anos, a natalidade estagnará, teremos depois o envelhecimento da humanidade; dois terços dos habitantes do planeta viverão em cidades cuja a população terá duplicado, como igualmente duplicará o número de pessoas em idade activa. Segundo, o espaço das democracias de mercado alargou-se, está definitivamente associado á liberdade política. É o que Attali designa por Ordem Mercantil, um processo gradual que se iniciou no próximo Oriente, depois no Mediterrâneo, prosseguiu no Mar do Norte, no Oceano Atlântico, está agora no Pacífico. Observa o autor que “Por volta de 2035, no culminar de uma longa batalha e no meio de uma grave crise ecológica, os EUA, império ainda dominante, serão vencidos por esta globalização dos mercados e pelo poderio das empresas, sobretudo as seguradoras. Esgotados tanto no plano financeiro como no plano político, à semelhança dos impérios que os antecederam, os EUA deixaram de gerir o mundo. Por volta de 2050, o mercado ganhará vantagem sobre a democracia. O aparecimento de novas tecnologias nanométricas permitirá reduzir os consumos de energia e transformar os últimos serviços colectivos. No hiperimpério, cada indivíduo passará a ser leal apenas a si mesmo; as empresas deixaram de se identificar com determinada nacionalidade; as leis serão substituídas por contratos, a justiça pela arbitragem, a polícia por mercenários. Os recursos serão cada vez mais escassos, os robôs mais numerosos. O tempo será quase integralmente preenchido pelo uso de bens de consumo. Na continuação do seu ensaio, Attali recorda-nos que se limita a aprofundar teses desenvolvidas em obras anteriores: a deslocação geopolítica do mundo para o Pacífico, a instabilidade financeira do capitalismo, os desafios do clima, o aparecimento das bolhas financeiras, as ameaças do terrorismo, o advento dos objectos nómadas (caso do telemóvel e do computador).

A longa e extraordinária história da ordem mercantil

Na primeira parte do seu ensaio, viaja através da história para nos documentar sobre os fundamentos do poder mercantil: como passámos de ritualização para a sedentarização, como surgiram há cerca de seis mil anos os primeiros impérios, como se fundou uma ordem comercial nas margens do Mediterrâneo, graças a povos inventivos (Gregos, Fenícios e Hebreus, com a paixão pelo progresso, metafísica e acção); seguem-se séculos de tensões entre a Ásia e o Ocidente, a Mesopotâmia teve então um importante papel, ficará de futuro na encruzilhada entre grandes impérios, Roma substituirá a Grécia, segue-se o Cristianismo e quando chegamos ao império muçulmano, no império romano do Ocidente surgem nações que se vão revelar capazes de gerir a nova ordem mercantil, serão o contrapeso do islão. Toda esta progressão que irá desaguar nas democracias de mercado terá em dado momento cidades-“coração” que tanto poderão ser Bruges e Veneza como mais tarde Londres, Boston, Nova Iorque e Los Angeles. O autor destaca alguns aspectos capitais de todo o itinerário da Ordem Mercantil, é imaginativo e procede a sínteses luminosas. Mais próximo de nós, ele refere Nova Iorque já no triunfo do motor eléctrico, um mundo que se estruturou à volta do fornecimento de electricidade, abonos de família e outras medidas sociais. Iniciara-se a sociedade de consumo, acumularam-se os triunfos tecnológicos. Discretamente, o centro económico e geopolítico prossegue a sua viagem até Los Angeles, é na Califórnia que nasce o microprocessador e toda a civilização digital. A Califórnia é hoje o Estado com o PIB mais elevado dos EUA e classificar-se-ia em sexto lugar à escala mundial se fosse um Estado independente. Quando se julgava que os EUA tinham entrado em refluxo, a transferência da ordem mercantil para o Pacífico trouxe uma nova dinâmica ao crescimento e à iniciativa empresarial. Um dado significativo que não pode ser iludido é o do alargamento da ordem mercantil às novas democracias de mercado: caíram as ditaduras da América Latina e da Europa Ocidental, colapsou o sistema soviético, o sistema mundial liberalizou-se por toda a parte. Attali recorda: “Entre 1980 e 2006, o PIB mundial triplicou, o comércio de produtos multiplicou-se por vinte e cinco. Os EUA estagnam, a Europa declina, a Ásia revigora-se. A China descola depois de 1989: a maior ditadura do mundo produz, em 2006, mais de metade dos produtos-chave das formas anteriores (frigoríficos, televisões, máquinas de lavar). É actualmente, à escala global, o primeiro consumidor de cobre, ferro, níquel, chumbo e alumínio e é o segundo consumidor de petróleo.

Mas os sinais de desagregação, os contrastes, são evidentes: a remuneração horária mínima de um californiano é quatro vezes superior à remuneração diária de um terço da humanidade; metade dos habitantes do planeta não têm as devidas condições de acesso a água corrente, educação, serviços de saúde, crédito ou habitação. Há cidades gigantescas que viram a sua população multiplicar-se por quarenta entre 1950 e 2006; os 49 países mais pobres do planeta, que reúnem 11 por cento da população mundial recebem apenas 0,5 por cento do PIB mundial.

É a olhar o que se passa à nossa volta e na previsão das próximas décadas que o ensaio de Attali se revela estimulante e ousado. Porque estamos na pré-história do futuro, é agora que se poderá perguntar se haverá condições para uma paz no Médio Oriente, se e quando vai faltar o petróleo e para quando se estima o aparecimento de energias alternativas. Los Angeles continuará a ser o centro da Ordem Mercantil durante bastante tempo. Los Angeles já é o centro cultural, tecnológico e industrial dos EUA, enquanto Washington é a capital política e Nova Iorque a capital financeira. Os EUA irão deter ainda por algum tempo o controlo das tecnologias da defesa do transporte de dados, da micro electrónica, da energia, das telecomunicações, ta aeronáutica, dos sistemas de comando. É neste compasso de espera que se está a fermentar o quadro de tendências, o aparecimento de técnicas e de tecnologias, as reorganizações sociais, a consolidação das novas potências económicas e políticas. É um mundo fascinante para trabalhadores e consumidores, para perceber o domínio da Ásia e a ascensão da China, mas também a mercantilização do tempo, a nova sociedade em rede, o envelhecimento do mundo, quais as carências insuperáveis e a alvorada do hiperimpério. São estes futuríveis desenhados por Jacques Attali que iremos apreciar no próximo texto. Será na hiperdemocracia, dirá ele em tom profético, que iremos caminhar rumo à abundância erradicar a pobreza, possibilitar a cada um desfrutar equitativamente dos proveitos da tecnologia e preservar a liberdade dos seus próprios excessos como os dos seus inimigos.

DESABITUAÇÃO TABÁGICA PARA PROFISSIONAIS DE SAÚDE

Beja Santos

 

A Direcção-Geral da Saúde e a Gradiva acabam de publicar “Cessação Tabágica”, um manual precioso que inclui um programa para a actuação dos profissionais de saúde, destinado ao tratamento da dependência do tabaco. É um documento de grande utilidade e o seu conteúdo não se circunscreve aos responsáveis por consultas de cessação tabágica, abrange igualmente os médicos, farmacêuticos e enfermeiros, diariamente confrontados com as inúmeras perguntas daqueles que pretendem abandonar o vício do tabaco. Na verdade, como escreve o médico de família Luís Pisco “Educar as pessoas em relação ao fumo e aos seus efeitos, informar os fumadores sobre os benefícios para a saúde que resultam da cessação do consumo, prestar mais apoio aos que querem deixar de fumar e ajudar a proteger os cidadãos do fumo passivo, são prioridades que devem ser assumidas por todos”. Por todas as razões, o rigor deste documento merece ser analisado e amplamente divulgado. A título exemplificativo, tome-se em consideração porque é que o tabaco provoca dependência, como é que a prática clínica, mediante consultas de apoio intensivo, incentiva ao tratamento do tabagismo, e como é que este apoio intensivo se planeia e organiza para permitir a eficácia dos resultados. Porque é que se depende do fumo do tabaco

Depende-se do tabaco por múltiplos factores, mas é na nicotina (alcalóide que provoca dependência física e psíquica) que é absorvida no fumo que temos o principal responsável. Os prejuízos para a saúde do tabagismo estão fundamentalmente relacionados com a nicotina, sem prejuízo dos outros milhares de substância tóxicas que estão no tabaco. Costuma-se dizer que um fumador, mesmo quando abandona o vício, ficará toda a vida dependente da nicotina. É por esta razão que aqueles que abandonam com êxito o tabagismo não deverão voltar a pegar num cigarro pois fica-se sempre em risco de regressar a esta dependência que tanto esforço custo para conseguir abandonar.

Raramente se abandona o tabaco à primeira tentativa, é necessário estar preparado psicologicamente para a cessação tabágica. É igualmente necessário ter conhecimento das recaídas a que está sujeito um ex-fumador. A primeira pode surgir no terceiro mês após o abandono. A recaída ao fim de um ano é muito comum e por vezes pode ocorrer mais tardiamente. Há também toda a conveniência em conhecer os sinais ou sintomas que o fumador vai sentir, principalmente durante os primeiros tempos para que mais facilmente sejam suportados e ultrapassados. O síndrome da privação tabágica (falta de nicotina no organismo) provoca, entre outros, os seguintes sintomas: alteração de humor ou humor deprimido, irritabilidade, ansiedade, sensação de frustração, dificuldade de concentração, agitação, aumento de apetite ou desejo incontrolável de fumar.

Os autores de “Cessação Tabágica” explicam cuidadosamente quais são os constituintes do fumo do tabaco, quais as repercussões na saúde deste consumo, referem o processo de mudança comportamental inerente ao deixar de fumar. Como é evidente, e os profissionais de saúde conhecem esses dados, são muito importantes as mudanças nos estilos de vida: aumento de peso, o que requer cuidados especiais como regime alimentar, andar a pé ou ter outra actividade física que pode colaborar na prevenção do aumento de peso.

Prioridade das prioridades:

um programa fiável para actuar na cessação tabágica

A natureza da intervenção dos profissionais de saúde nos espaços de desabituação tabágica é a segunda parte importante do livro. Fica-se a conhecer a natureza da intervenção, a identificação dos hábitos do fumador, qual é o seu nível de preparação psicológica para abandonar o tabaco. É o grau de preparação que define a natureza da intervenção, sabendo-se previamente o que motiva a dependência do fumador, caso-a-caso. Assim se estruturam as consultas de apoio intensivo, definindo-se as responsabilidades dos intervenientes antes e após o dia em que cessa o tabagismo e começa o acompanhamento que se prolonga pelos meses subsequentes. Sobretudo os médicos e os enfermeiros que zelam por estes programas de desabituação precisam de saber organizar uma entrevista motivacional e usar as técnicas de comunicação mais apropriadas. Estes mesmos profissionais precisam de conhecer os diferentes tratamentos farmacológicos que assentam sobretudo na terapêutica de substituição da nicotina (caso das gomas, pastilhas e sistemas transdérmicos de nicotina) que têm contra-indicações e precauções que são obrigatoriamente de ponderar. Há também fármacos não nicotínicos que o profissional de saúde precisa de analisar pois igualmente tem contra-indicações.

Convém não perder de vista que há medicamentos que podem ser adquiridos nas farmácias sem receita médica: é o caso de pastilhas e pensos. Mais recentemente é prescrita pelo médico uma substância anti-depressiva a bupropiona num tratamento que deve ser acompanhado pelo médico e não deve ser prolongado por muito tempo. Há casos em que as pessoas conseguem abandonar o tabaco apenas com o auxílio de um calmante que irá reduzir a ansiedade e a irritabilidade. Existem ainda várias outras substâncias em investigação com esta finalidade. Os profissionais de saúde em centros de desabituação tabágica apoiam os viciados dando sugestões úteis na prática clínica, do género: estabelecer uma data para dar início a este processo; informar os amigos e pessoas que nos rodeiam acerca de tal decisão; não permanecer em ambientes de fumo; se um café estimular a vontade de fumar, reduzir ou evitar este consumo, fazer desaparecer os cinzeiros, etc.

Os serviços de apoio intensivo têm que ser planeados, ter equipamento próprio e uma equipa multiprofissional, onde não podem faltar o médico, o psicólogo e o nutricionista. O livro não refere mas o farmacêutico pode constituir um valioso auxiliar na motivação para a desabituação tabágica ainda por cima ele está habilitado a dispensar medicamentos não sujeitos a receita médica, o seu aconselhamento pode ser determinante. Na verdade, para quem quer deixar de fumar, o farmacêutico pode indicar quais os métodos e medicamentos que o podem auxiliar e dar os contactos do centro de desabituação tabágica nos casos verdadeiramente rebeldes.

Este livro merece ampla desabituação, estar acessível a todos os profissionais de saúde. O tabagismo, é de todos sabido, constitui a principal causa evitável, incapacidade e morte. Com os sucessos da cessação tabágica, com fumadores motivados a abandonar o vício, com profissionais de saúde capazes de dialogar e aconselhar, podemos e devemos ir muito mais longe nos bons resultados com o abandono do fumo. Que todos os profissionais de saúde possam conhecê-lo, é o nosso voto sincero.

O CULTO DO AMADORISMO:

(TALVEZ) O LADO MAIS SOMBRIO DA INTERNET

Beja Santos

 

Um conhecido empreendedor de Silicon Valley, fundador do Audiocafe.com, um popular website, veio revelar-se como um dos mais destacados denunciadores dos perigos sociais, económicos e éticos da Internet. O seu libelo“O Culto do Amadorismo” é incontestavelmente provocador e bem argumentado, a ponto de não poder ser ignorado. Falando por mim, recomendaria que não fosse. É provável que o leitor não esteja indiferente quanto ao debate indispensável para a revolução digital. Então, leia “O Culto do Amadorismo, como a Internet actual está a matar a nossa cultura e a assaltar a economia”, por Andrew Keen, Guerra e Paz editoras, 2008. Compreende-se que o culto do amadorismo esteja a ser violentamente atacado por bloggers, youtubers ou wikipedianos, entre outros grupos, ofendidos por ver a sua fé questionada num mundo onde a cultura está a perder em vez de auferir de todos os benefícios da revolução digital: a simulação do gratuito está a fazer definhar jornais, revistas, publicações especializadas, a indústria musical e cinematográfica, substituídos por conteúdos amadores. Andrew Keen poderá ser acusado de elitista ao denunciar os perigos da celebração do amadorismo. Mas ele fundamenta os seus argumentos: a cultura online do copy-paste não só desfigura a propriedade intelectual como está a provocar um terramoto económico, social e cultural: a destruição dos direitos de autor, a espoliação de artistas, autores, jornalistas e todos aqueles que dependem do trabalho criativo. Em troca de quê? Em vez de promovermos o jornalismo responsável acreditamos em todas as pessoas que podem publicar num blogue, disponibilizar um vídeo no Youtube ou mudar um artigo da Wikipedia. Estão esbatidas as fronteiras entre o verdadeiro e o imaginário, ganha cada vez mais espaço uma cultura que enaltece o plágio e a pirataria.

Afinal, em que mundo vivemos? Se continuarmos a este ritmo, escreve Keen, haverá mais de 500.000.000 de blogues em 2010, aumentando a possibilidade de termos uma opinião pública cada vez mais confusa, sem saber muito bem o que é sério e puro delírio na política, comércio, arte e cultura. Desde o advento da Wikipedia, já mais de 1.500 colaboradores criaram quase 3.000.000 de verbetes em mais de uma centena de línguas diferentes, a Wikipedia tornou-se no terceiro sítio mais visitado para saber informações e acontecimentos culturais. Ora, são inúmeros os casos de manipulação e condicionamento de opinião pública na Wikipedia. Com este triunfo do amadorismo, assistimos impassíveis ao descrédito dos jornalistas e vamos procurar informações em sítios que não primam pela credibilidade. Mas não será essa ofensiva do amadorismo um triunfo da democratização? Não é, está a desvalorizar a verdade, a qualidade do discurso público civil, a encorajar o plágio e a atrofiar a criatividade. Vivemos em remix, sem perceber que a banalização do empréstimo e do copy-paste degrada a independência intelectual, tornando difícil determinar a diferença entre leitor e escritor, artista e manipulador. Mas o amadorismo estende os seus perigos para além da informação, ameaça o mundo do design, da moda e da publicidade, leva os colossos financeiros e económicos a servirem-se do digital para nos querer seduzir ,disfarçados de informação rigorosa e séria. A indústria discográfica está seriamente afectada, está o cinema, estão as empresas de comunicação. Andrew Keen avança com algumas soluções e dá exemplos de revolução digital que preserva a nossa cultura e valores. Fala na Citizendium como um projecto wiki que combina a participação pública com a orientação discreta de especialistas, há que voltar a confiar nos nossos especialistas, caso dos jornais e revistas tradicionais que estão a reagir aos desafios, combinando conteúdos da nova multimédia e tradicionais sem comprometerem padrões editoriais nem de qualidade. Entre exemplos conhecidos, ele refere o jornal britânico The Guardian que tem uma versão em linha« Guardian Unlimited »que se pode gabar de ter mais leitores em linha do que jornais como o Los Angeles Times. Embora o« Guardian Unlimited »seja grátis, tem conseguido alcançar algum sucesso económico por meio do equilíbrio efectivo de custos e vendas de publicidade em linha.

Como é evidente, não é só esta ilusão de que a tecnologia por si só poderá gerar uma democracia melhor que deve ser o fulcro das discussões que possam permitir superar a onda de arbitrariedade e narcisismo que atravessa a Internet. O próprio mundo dos negócios, o discurso político e os construtores de opinião deviam ter um papel esclarecedor sobre o triunfo do gratuito recebido com tanto entusiasmo no mercado de consumo. Criou-se a ilusão de que com as coisas gratuitas os consumidores escapam ao mercado. É uma bênção(!) fazermos cópia de tudo ou comprarmos filmes piratas a um euro! É que nisto que o gratuito se tornou um filão comercial que envolve jornais e revistas e promove um marketing que promete o gratuito. Perdeu-se a dignidade de pagar aos criativos, noção indispensável que prepara os valores do prémio pelo talento ou mérito. Este conceito do gratuito é uma das rampas de lançamento do próprio amadorismo. Ler o livro de Andrew Keen é ter coragem de olhar para dentro da Internet e querer melhorar as coisas. É bem provável que haja exageros na sua denúncia, o importante é termos o espírito aberto para conhecer os limites, os perigos e os desafios de uma comunicação social que, como muitos crêem, não pode estar exclusivamente nas mãos dos utilizadores.

A SALA MAGENTA

Beja Santos

 

Mário de Carvalho, indiscutivelmente um dos maiores ficcionistas portugueses do nosso tempo, proporciona-nos regularmente uma viagem aos usos e costumes da nossa sociedade: malta da tropa ou dos partidos, malta da construção civil ou das artes e letras, fica durante algumas centenas de páginas debaixo de fogo, envolvendo-se(envolvendo-nos) no burlesco ou na quinta-essência da revista à portuguesa. Desta vez o anti-herói do seu fabulário chama-se Gustavo Miguel Dias, é um obscuro realizador de cinema em queda livre de conhecimentos e solicitações da máquina comercial, foi espancado numa bomba de gasolina, saiu esmocado, foi um bom pretexto, à beira da miséria, para viver à conta da mana e fazer um exercício de revisão de vida, à boa maneira dos Jesuítas, o exame é tão duro que até houve a tentação, em desespero pícaro, de se embebedar e atirar para um charco de água, uma tentativa de suicídio de ópera bufa. A diferença entre esta paródia de “A Sala Magenta” e o grandioso romance “Fantasia para Dois Coronéis e uma Piscina” é que agora o ficcionista não esconde a amargura da visão do semelhante, a perda de esperança de um pré-sénior dependente atirado para a Lagoa Moura, ali ao lado de Grodemil, envolvido pelas gentilezas da mana Marta que o ajuda na convalescença, de tão boazinha que ainda não dimensionou o inútil que tem para sustentar até ao fim dos tempos.

O realizador falhado está completamente nas mãos de Mário de Carvalho, é a principal vítima do desencanto do escritor e, por simpatia, a sociedade portuguesa da Lagoa Moura até Lisboa vai ser passada pelo crivo. Gustavo Miguel Dias não se pode mexer, não só pela perna engessada como pelas costelas partidas e dores várias, quando tudo isto começa. Solitário, rememora a sua vida, o que aconteceu à Marta, é impiedoso com o escroque do sobrinho, Cláudio, que anda cheio de lábia e ronha a extorquir uma notas à mãe.Ele enternece-se quando fala de Marta: “Bonita que fora mana, doces lhe iam agora e entristecidas as feições, com dois arcos já descaídos melancolicamente sob os olhos, da linha dos lábios, mais resumida e vincada que outrora, nascia um irradiar de breves pespontos, ainda sumidos, não tão flagrantes como a pele do pescoço já a querer desaprumar. Ao fim de tantos anos, só agora reparava nos traços da irmã, figura tão naturalmente comparte da sua vida que não considerara sequer a eventualidade de lhe apreciar as feições, mormente pela inutilidade de fazer valer essa avaliação”.

Gustavo reexamina a sua vida, os sues amores e desamores, a paixão que nutrira por Maria Alfreda, era em sua casa que existia a sala magenta, era ali que todo o seu ser rejubilava. Está sem um chavo, Marta sugere que vá à segurança social, fala com os vizinhos à volta da Lagoa Moura, é procurado aqui e acolá por relações do passado, Julião Couraceiro, “o convexo produtor da Ex-Machina Filmes, de pronúncia beirã sibilada e gosto pelo circunlóquio”, finge que lhe paga mas não paga o que lhe deve, toda esta vida é um deserto, foi tudo uma perda de tempo, viveu a ilusão até chegar esta prova dos nove da sua inutilidade. Os dias passam insípidos em Lagoa Moura, o corpo lá se recompõe, Gustavo arquitecta uma grande bebedeira, vai acabar tudo numa farsa, onde ele supunha um final digno de uma ópera de Wagner acaba tudo numa risota tipo Maria Vitória. Gustavo Miguel Dias é a grandeza bacoca a que chegou muita gente que entrou num estradão sem retorno depois de muita mentira no Portugal europeu dos nossos tempos. É tudo farsa, só que o burlesco anuncia-se em tons de magenta, só para nós vermos, é esta a cor da esperteza saloia dos novos vencidos da vida.

Grandessíssimo romance, mesmo com toda esta ironia amarga, mesmo sabendo nós onde fica a Lagoa Moura e o multibanco de Grodemil.

O SÉTIMO SELO

Beja Santos

 

A sociedade de consumo viu emergir um conjunto de questões imateriais relacionadas com a mudança social, tais como: o consumo de massas; a espiral das necessidades secundárias; o consumo na vida quotidiana e as suas múltiplas representações; a comunicação destinada às multidões; os lazeres; a terceira cultura como actividade alternativa às culturas clássicas e nacionais; o aparecimento do bestseller; e o turismo. A terceira cultura é um facto da civilização na sua dimensão antropológica: constitui uma nova maneira de idealizar, difundir e compreender os factos culturais fora da cultura académica, religiosa ou humanística. Foi Edgar Morin quem forjou esta classificação para definir uma cultura produzida de acordo com as leis do fabrico que regem a economia do consumo: em série, repetitiva, que se pode reproduzir nos aparelhos que nos cercam em conformidade com os sucessos do digital. Cultura que é distribuída pelos meios de comunicação de massas e que se dirige essencialmente às massas. Cultura que se consome como qualquer outro produto segregado pelo sistema industrial. Como assinala Morin: “Está constituída por um corpo de símbolos, mitos e imagens que se referem à vida prática e à vida imaginária, é um sistema específico de projecções e identificações. É uma cultura que se junta a todas as outras culturas, entrando em concorrência com elas”.

Até à sociedade de consumo (melhor dito, até ao sistema industrial) pontificavam as culturas eruditas e religiosas. As obras de Erasmo ou Shakespeare andavam em paralelo com as leituras religiosas, até ao Século das Luzes o pensamento teológico circulava em meios universitários numa total promiscuidade com as culturas profanas. A criação da metrópole como centro populacional criou novas exigências sociais, fazendo surgir os cafés, amplos teatros e salas de espectáculo, jornais e gazetas, arrastando consigo uma literatura e uma arte em compromisso com os grandes públicos. A terceira cultura é constituída pelas séries televisivas, as novelas cor-de-rosa, espectáculos grandiosos de música ligeira e pelos bestseller. Este garante o acesso das massas aos domínios culturais, fora da universidade, do templo religioso ou das interpretações académicas. Os bestseller, sem prejuízo dos grandes sucessos literários onde podemos incluir José Saramago, António Lobo Antunes ou Mia Couto, tem a ver com máquinas editoriais que procuram ir ao encontro das aspirações de amplos auditórios. Há escritores de bestseller que têm uma oficina de colaboradores como os ateliês dos artistas plásticos do Renascimento, é nesses ateliês que se juntam as diferentes ideias a partir de uma trama que é trabalhada em função de uma determinada singularidade. O bestseller significa cinema, televisão, espectáculo de variedades ou literatura, mas a noção de bestseller não se esgota nestes géneros. Quando Vasco Pulido Valente veio desancar Miguel Sousa Tavares depois da publicação de “O Rio das Flores”, perdeu-se uma oportunidade para debater a essência do bestseller que não precisa de ser equiparado como as peças artísticas. Não acredito que Miguel Sousa Tavares ou Margarida Rebelo Pinto estejam convencidos se lhes abriu a posteridade através da literatura. Eles, num escasso número de eleitos, descobriram a poção mágica de se dirigir ao público, satisfazendo uma necessidade de entretenimento ou desopilação de outros afazeres. É uma literatura que não ameaça a cultura erudita e ajuda as massas a ocuparem o tempo ou até a aprender novos conhecimentos. José Rodrigues dos Santos tem tido essa preocupação, e não se está a dar mal.

Li “O Sétimo Selo”, o mais recente bestseller de José Rodrigues dos Santos (Gradiva, 2007) e percebi como ele foi bem sucedido como divulgador explicando a mudança climática e o problema energético à escala mundial. Urdiu uma história que começa na Antárctida, em 2002, com a descoberta científica que as plataformas de gelo com maior significado estão a desmoronar-se. Dois cientistas são entretanto assassinados. Um filho extremoso, Tomás Noronha, um professor da Universidade Nova e especialista em códigos secretos, acompanha a sua mãe ao médico, ela dá sinais evidentes de Alzheimer. Um homem chamado Alexander Orlov, que diz trabalhar para a Interpol, pede para se reunirem com urgência. Antes, porém, Noronha sofre um estranhíssimo acidente de automóvel que o deixa praticamente ileso. Orlov propõe-lhe que ele descubra Filipe Madureira, perito em questões energéticas, suspeito de ter assassinado os dois cientistas em 2002. Cedo se percebe que estamos embrenhados num bestseller de divulgação científica. Numa conversa ao arrepio de qualquer lógica, Orlov, enquanto tritura toneladas de comida explica ao professor Noronha os três tipos Pólo Sul. Depois fala-se do número 666, o número da Besta, Orlov refere outro cientista, o professor James Cummings que também desaparecera na altura dos assassinatos dos dois cientistas e de um email enviado a Filipe em que se fala do Sétimo Selo, matéria que nos leva ao Apocalipse. Noronha envia um email a Filipe e entretanto vai até à sede da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) em Viena de Áustria, onde vai conversar com Abdul Qarim sobre as reservas mundiais de petróleo. Temos aqui nova lição, tudo em passeio em Viena de Áustria e ficamos a saber que as maiores jazidas mundiais estão no Médio Oriente e que as alternativas ao petróleo ou são dispendiosas ou até ineficientes. Como por acaso, Orlov aparece em Viena e o professor Noronha dá-lhe uma lição de guematria, que é a disciplina da Cabala que está na génese da moderna numerologia, fala-se de Hitler de Nero e do anúncio do fim do mundo. Entretanto o estado da mãe de Tomás Noronha agrava-se ele procura que a mãe fique num lar “O Lugar do Repouso”, o que levanta uma grande reacção da anciã. Para fugir à angústia, Tomás volta ao trabalho e tem depois uma longa conversa com Orlov acerca do Livro dos Sete Selos. Parte para Moscovo onde se encontra com Nadezhda, uma estudante dançarina de cabaret, ambos vão partir no Transiberiano, e em Irkutsk, junto ao lago Baikal, partem ao encontro de Filipe. Na viagem de três dias entre Moscovo e Irkutsk, Nadezhda, que além de bailarina é perita em paleoclimatologia explica a Tomás o problema do aquecimento da Terra. Temos aqui novo exercício de divulgação científica, fala-se do dióxido de carbono e da forma de o medirem na atmosfera e insinua-se que o aquecimento do planeta pode levar ao Apocalipse. Quanto Tomás e Filipe se encontram em Olkhon entramos em nova toada de divulgação de conhecimentos científicos, fala-se sobre os consumos actuais da China e da Índia, do protocolo de Quioto, do derretimento dos glaciares, das violentas tempestades no Pacífico, inundações na Califórnia, e secas em África e até nos incêndios em Portugal. Há um novo assassinato e os dois amigos portugueses viajam secretamente para a Austrália onde se vão juntar ao professor Cummings. É aqui que vai ter lugar a revelação sobre o projecto O Sétimo Selo, onde se fala da separação do hidrogénio do oxigénio na água, dando origem a uma nova fonte de energia acessível e quase gratuita. Aparecem entretanto os maus da indústria petrolífera que procuram matar os três cientistas. Tomás Noronha vence os diferentes obstáculos e regressa a Portugal para dar apoio à sua mãe.

José Rodrigues dos Santos avisa-nos que a informação histórica, técnica e científica referenciada no romance é verdadeira. Na nota final diz mesmo que o futuro do abastecimento energético constitui, talvez, o maior e mais importante desafio da humanidade para a próxima década. Fala em sustentabilidade, pois é preciso ter em conta que a auto-regulação da Terra está presentemente fora de controlo. E porque estamos num romance, recorda-nos que o hidrogénio é apenas um dos vários futuros possíveis, onde cabem o etanol, o metanol e o gás natural. “O Sétimo Selo” cumpre a sua função e para quem não sabia revela-se importante na divulgação sobre a mudança climática e lança os alertas necessários sobre o futuro da humanidade. A generalidade dos diálogos são inverosímeis, mas isso também tem pouca importância pois estamos a falara de um bestseller que é um destino estético da indústria cultural em que o importante é a estrutura estilística, o argumento e o frenesim, o futuro da literatura virá sempre em último lugar, o que interessa é triunfar algumas semanas ou meses nas vendas das livrarias.

Comentários

Comment de Manuel Poirier Braz
Data e hora: Março 22, 2008, 4:01 pm

Conheço-o das questões relacionadas com os produtos de consumo. Não o sabia crítico literário, mas congratulo-me por que também se sinta capaz de o ser. O meu livro é uma tentativa de divulgação de uma época, junto daqueles que já a esqueceram ou que nunca chegaram a conhecê-la. Não pretendi escrever para eruditos, mas sim para as pessoas comuns. De qualquer modo agradeço a sua crítica.

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Data e hora: Novembro 29, 2008, 4:07 am

I Admire Your Work, Brilliant

Comment de Andreia
Data e hora: Abril 19, 2010, 9:45 am

Onde posso obter um contacto de email de Beja Santos?

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